Minas Gerais aprova Conselho Estadual de Comunicação

Minas Gerais vai instalar seu Conselho Estadual de Comunicação. Emenda nesse sentido, feita ao projeto de lei que criou a Empresa Mineira de Comunicação (EMC), foi recentemente aprovada na Assembleia Legislativa do Estado. O pleito, que não é novo, foi demandado pelo comitê mineiro do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e apresentado pela bancada do PT/MG.

A instância, prevista na Constituição Estadual de 1989, foi criada por lei em 1994, mas nunca saiu do papel, apesar das cobranças feitas por movimentos da sociedade civil nos últimos 27 anos, inclusive em audiências públicas realizadas pelo legislativo mineiro nos últimos 13 anos. Na etapa estadual da Conferência de Comunicação Social, em 2009, o tema fez parte das deliberações. Há cerca de três meses, em seminário sobre a comunicação pública, organizado pela Assembleia Legislativa, o assunto foi novamente recolocado pelo FNDC. De modo diferente do Conselho de Comunicação de âmbito federal, que é vinculado ao Congresso, o estadual é vinculado ao Executivo e terá como presidente o vice-governador do Estado.

No mesmo pacote de aprovações foi instituído o Conselho Curador da EMC, com composição paritária entre sociedade civil e governo, como órgão da estrutura de gestão da nova empresa. O projeto original enviado pelo Executivo não previa o Conselho Curador, embora ela já exista, precariamente, na estrutura da TV Minas, que, com a criação da EMC se funde com a Rádio Inconfidência, formando um embrião de um sistema público de comunicação.

Teóricos da democracia, como Robert Dahl, já apontaram, há muito, a liberdade de expressão e o acesso à informação como condições para a realização da democracia plena. A liberdade para falar e ser ouvido pressupõe instâncias de participação, que, além de canais de vocalização de preferências, também sejam fóruns de decisões. No caso brasileiro, em que pese os avanços conquistados pós-Constituição de 1988, ainda há muito a percorrer nesse caminho.

É verdade que os déficits de informação na administração pública, começam a ser reduzidos com a vigência, há quatro anos, da Lei de Acesso à Informação, que tem possibilitado melhores condições para o controle público sobre os atos dos governantes. Mas isso não é o suficiente: como o gestor público tem acesso a informações privilegiadas que o cidadão não tem, a democracia requer o acesso a fontes alternativas, que podem reduzir essa assimetria informacional entre Estado e Cidadão.

Ao recorrer ao mercado para obter essa “informação perfeita”, encontramos uma mídia hegemônica e altamente concentrada, dominada por alguns grupos econômicos, que detém o poder de produzir, selecionar e propagar conteúdos em massa. Tidos pela teoria econômica como principais falhas de mercado, os monopólios e oligopólios direcionam conteúdos informativos, impõe pontos de vistas e restringem a liberdade.

Nessa situação é que desponta a necessidade de políticas públicas de comunicação, com o propósito de estimular as diversidades política e cultural no setor. Um das formas de viabilizá-la é democratizar a gestão da mídia governamental e da mídia pública, chamando a sociedade para o centro de decisões. Outra forma é o incentivo a novos e mais veículos de comunicação, em projetos e programas com interface com a área de educação, com a cultura e com o desenvolvimento da economia criativa.

Políticas públicas de comunicação

Uma das falhas dos governos Lula e por Dilma, tardiamente reconhecida por ambos, foi de não terem priorizado as demandas da comunicação pública. A falta de uma política pública que democratizasse essa área no Brasil, como comanda a Constituição Federal, agravou a concentração da propriedade dos veículos de comunicação e condenou ao raquitismo, em que pese as novas tecnologias, as fontes alternativas. Com isso, o crescimento do poder do monopólio midiático, subordinado ao capital financeiro, usurpou do povo o direito de controlar a agenda política do país.

Em tempos complexos, com previsão de mares revoltos pela frente, nada mais acertado que reforçar as embarcações. Temos a oportunidade, governo e sociedade, de fazer isso em Minas Gerais, com a instituição do Conselho Curador na EMC e do Conselho Estadual de Comunicação, que terá a atribuição de elaborar e implementar a política pública da área, por meio do Plano Estadual de Comunicação. É uma oportunidade histórica para que o governador Fernando Pimentel e o vice-governador Antônio Andrade façam o que não feito por seus antecessores, e evitem as omissões, em âmbito estadual, como aconteceu com o governo federal, numa área estratégica para a democracia.

Fonte: Observatório da Imprensa

Consumidor quer informação sobre produtos, mas está mais desconfiado do que nunca

consumer-confusedRealizada pela holding de comunicaçao e marketing IPG desde 2009, o estudo bienal IPG New Realities chega à sua 4ª ediçao constatando que o crescente desejo de receber informaçoes sobre produtos e serviços por parte dos consumidores anda de maos dadas com a desconfiança em relaçao às informaçoes fornecidas pelas empresas. Neste ano, foram analisadas prioritariamente as categorias de serviços bancários, seguros, automotivo, computadores, softwares e fast food. O estudo compreende um total de 3,600 entrevistas, realizadas bienalmente com homens e mulheres, com igual proporçao de geraçao X, Y e Baby Boomers, que acompanham proporcionalmente a demografia do país, porém sempre com acesso à internet. A despeito da miríade de canais de informaçao, a pesquisa identifica uma crescente predisposiçao dos consumidores em relaçao ao recebimento de informaçao. Os brasileiros sao os que mais declaram gostar de pesquisar informaçao para amparar suas decisoes de compra, registrando um crescimento de 55% em 2011 para 72% em 2015.
Vivemos o grande paradoxo da economia da confiança: se por um lado temos empresas como Uber, Alibaba e Airbnb, que sao líderes em seus respectivos mercados sem terem um carro, estoque ou um imóvel sequer; por outro vivemos uma das maiores crises de confiança nas instituiçoes de que temos notícia”, avalia Terry Peigh, vice-presidente sênior e diretor do IPG, responsável pela pesquisa. Por isso, segundo o executivo, as empresas têm que trabalhar agressivamente para construir confiança e serem totalmente transparentes em suas comunicaçoes de marca. “Acreditamos ainda que é muito importante que as marcas estejam abertas à crítica, e respondam de maneira honesta a ela. Identificamos que os consumidores estao mais propensos a confiar e compartilhar positivamente conteúdos das marcas nas redes sociais quando a empresa é corajosa o bastante para reconhecer uma falha ou reclamaçao e lidar com ela”.
Diante da afirmaçao: “O nome e a reputaçao da marca importam mais hoje em dia do que antes“, 60% dos brasileiros estao de acordo (em 2011 esse índice era de 34%). Os brasileiros também afirmam, em 31% dos casos (ante 13% em 2011) nao acreditarem na maior parte da informaçao que vêm das marcas. Além disso, globalmente, mais de 60% dos consumidores dizem nao conseguir distinguir facilmente entre conteúdo de marketing e conteúdo nao comercial nas redes sociais, o que contribui para a desconfiança generalizada em relaçao às mensagens comerciais. A desconfiança absoluta atinge quase 1/3 da populaçao nacional, com 29% dos brasileiros afirmando nao confiar na informaçao oferecida pelas empresas (era 15% em 2011). Entre as recomendaçoes da pesquisa para que os anunciantes atendam de maneira mais eficaz a demanda dos consumidores por informaçao sobre seus produtos e serviços, estao desenvolver e dar suporte de informaçao a comunidades virtuais já existentes, descobrir e encorajar embaixadores de marcas, ter canais proprietários informativos e de fácil navegabilidade, desenvolver novas comunidades de usuários e recompensar o compartilhamento de informaçoes sobre a marca.
Fonte: Blue Bus

App facilita acesso à informação do sistema eletrônico do Judiciário

Projeto foi um dos 40 inscritas por tribunais de todo o país na Maratona PJe, competição entre desenvolvedores e programadores de software.
PJEO projeto “Justiça em Tempo Real”, aplicativo desenvolvido pelo Tribunal Regional da 2ª Região (TRT-2), aposta em proporciar mais interação entre os usuários do Processo Judicial Eletrônico (PJe) e o sistema de modernização da Justiça brasileira. Uma das funcionalidades do aplicativo é permitir ao usuário acessar notícias e outros conteúdos, conforme a necessidade dos gestores do sistema.
A ideia foi uma das 40 inscritas por tribunais de todo o país na Maratona PJe, uma competição entre desenvolvedores e programadores de software que promoveu a construção colaborativa do sistema difundido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
De acordo com o analista do TRT-2 e responsável pela equipe que desenvolveu o projeto, Ramon Chiara, a ideia do aplicativo é que o usuário se cadastre para receber no seu smartphone todos os conteúdos veiculados pela equipe do PJe como um alerta na seção “Quadro de Avisos”, que já existe atualmente no processo eletrônico. Uma vez cadastrado, o usuário se habilita a receber notícias relacionadas ao funcionamento do Tribunal, o clipping do Judiciário, avisos de utilidade pública ou qualquer outro conteúdo que for de interesse do TRT divulgar.
As mensagens chegarão do mesmo modo que mensagens de texto (SMS), na linguagem dos aplicativos de conversa instantânea das redes sociais. “A ideia surgiu pelo contato de alguns dos nossos desenvolvedores, que trabalham dando suporte técnico a usuários do PJe no Tribunal. Essa demanda surgiu a partir dos chamados que foram atendidos e dos problemas relatados”, afirmou Chiara, que integra a Seção de Implementação de Sistemas do TRT-2. Uma das vantagens do aplicativo é permitir direcionar determinadas mensagens ao público escolhido: magistrados, servidores do Judiciário, advogados, partes nos processos, entre outros.
Uma das possibilidades oferecidas pelo projeto do TRT-2, por exemplo, é mobilizar os usuários do PJe para uma campanha de vacinação. De acordo com Chiara, uma diferença do aplicativo do Tribunal em relação a outro canal de comunicação convencional, como a intranet, é a proatividade do emissor da mensagem. “Eu mesmo já perdi uma mobilização de doação de sangue porque não acessei as datas em que ocorreria em uma notícia da intranet. Com o aplicativo, trata-se de uma comunicação ativa do Tribunal”, disse.
Fonte: IP News

Como a Rio 2016 usou a segunda tela para falar com os jovens

Adriana Garcia, diretora de comunicação dos Jogos fala sobre a produção de conteúdo digital durante o evento

Adriana faz balanço durante palestra no INMA 2016 (crédito: Luiz Gustavo Pacete)
Adriana faz balanço durante palestra no INMA 2016 (crédito: Luiz Gustavo Pacete)

De um site institucional a um portal com mais acesso no mundo durante a Rio 2016. Esse era o desafio de Adriana Garcia, diretora de comunicação dos Jogos. A jornalista assumiu o cargo dois anos antes para cuidar de todo o conteúdo digital do evento. “Nossa estratégia foi a segunda tela tendo em vista o potencial mobile da Rio 2016 e nosso objetivo de falar com os jovens”. Presente no Inma 2016, Adriana deu detalhes de seus desafios e revelou que, de acordo com números preliminares, o tráfego foi seis vezes maior do que o de Londres.
Publicidade negativa
Geralmente, os meses que antecedem os Jogos costumam ser de pessimismo e com a Rio 2016 não foi diferente. O discurso internacional não ajudou bastante, mas tínhamos em mente que Isso já aconteceria.
A força do mobile
Várias pesquisas mostravam a força do mobile e do potencial digital dessa edição. Por meio de uma parceria com a Microsoft e a Isobar partimos para a estratégia da segunda tela.
O desafio do conteúdo
Tínhamos muito que trabalhar a gestão do engajamento de uma forma diferente tendo em vista que não poderíamos utilizar vídeo, já que era de exclusividade de nossos parceiros como a Globo.
Estrutura necessária
Vínhamos sofrendo vários cortes no orçamento e tivemos que entregar um site em quatro idiomas e milhares de links. A estratégia foi de buscar parceiros como o Google na área de mapas e buscar o crescimento orgânico. Além disso, tínhamos uma missão clara: ser o site mais acessado do mundo Durante os Jogos e era inadmissível que ele caísse.
A importância dos influenciadores
Tínhamos uma estratégia muito clara de falar com o publico jovem por meio de influenciadores. Utilizamos o Snapchat com 45 influenciadores. Fechamos uma parceria com o Facebook para trabalhar com instragamers.
Fonte: Meio e mensagem

Opinião: A mídia impossível, por Gabriel Priolli

Este que você lê no momento é um perfeito idiota. Dedicou mais da metade de sua vida profissional a uma quimera chamada “Comunicação Pública”, que, em boa hora, gente consciente trata de lhe mostrar o quanto é ilusória, ingênua e utópica.
Entre a TV Cultura e a televisão universitária (TV PUC, CNU-SP, ABTU), foram 23 anos empregados em defender um modelo de comunicação independente, voltado à educação, à cidadania, à diversidade cultural, à inclusão social pelo conhecimento. O prêmio pelo esforço é um verdadeiro 7×1 nos melhores sonhos do idiota, que, infelizmente, não está no lado alemão do placar.
A sofreguidão de Michel Temer em controlar a Empresa Brasil de Comunicação, tão logo assumiu, e a posterior intenção de reduzir a EBC a nada e extinguir a TV Brasil, anunciada quando o STF impediu a primeira meta, são muito significativas. Elas dão a exata medida do que esse governo (e todos os outros, a rigor) entende por “mídia pública”: aquela que se pode usar a bel prazer para a propaganda da gestão, a acomodação de apaniguados ou ambas as coisas.
Não é bem isso que preconiza o artigo 223 da Constituição Federal, ao falar da “complementaridade dos sistemas privado, público e estatal” de radiodifusão. Consagrando no texto legal um conceito forjado já no início dos anos 1980, os constituintes admitiram a diferença entre uma comunicação diretamente públicos, mas controlada pela sociedade, protegida de pressões e contingências de governos.
Ocorre que, qual a Viúva Porcina, a comunicação pública “é sem nunca ter sido”. Jamais passou de uma ideia generosa, que a realidade mesquinha cuida de inviabilizar. Com o empenho incansável dos mais variados governos, o apoio interessado da mídia privada e a indiferença da patuleia desavisada, a comunicação pública é tida por inviável no Brasil, um delírio de esquerdistas. Muito embora ela qualifique os ambientes comunicativos das principais democracias do mundo: Estados Unidos, França, Reino Unido, Alemanha, Itália.
Decreta-se por aqui que a única mídia pública cabível é a estatal e que esta deve ser reduzida à insignificância. Algo plenamente coerente, em um país onde a mídia privada manda e desmanda, elege e derruba governos, faz o que quer. Não se diz que, no Brasil, o estado é concessão da TV e não o contrário? Pois assim é, assim foi e assim seguirá sendo, até onde se pode enxergar.
Por que é idiota o redator destas linhas? Por acreditar que, um dia, o Brasil poderia ter uma BBC, uma RAI, uma PBS. Mais de trinta anos de debates não foram suficientes para enraizar sequer o conceito de mídia pública no país. Outros 300 não darão conta de materializá-la.
Era melhor ter acreditado em coisas mais palpáveis, como duendes, Papai Noel ou o ET de Varginha.

Como salvar emissoras públicas da ingerência estatal

Distinção entre público e estatal nunca foi muito clara no Brasil. E essa confusão está presente na própria lei de criação da EBC

Especialistas concordam que o modelo de gestão da EBC precisa ser reestruturado (Foto: ABr)
Especialistas concordam que o modelo de gestão da EBC precisa ser reestruturado (Foto: ABr)

Este ano, a TV Brasil foi palco de um embate entre o presidente interino, Michel Temer, e a presidente afastada,
EBC não pode ser partidária de governo, seja ele de esquerda ou direita
EBC não pode ser partidária de governo, seja ele de esquerda ou direita

Dilma Rousseff. Temer acusava Dilma de ter transformado em arma de propaganda a TV Brasil, que, por ser uma emissora pública, não pode ter caráter político-partidário. A tensão começou após Temer tentar exonerar Ricardo Melo, nomeado por Dilma presidente da Empresa Brasil Comunicação (EBC), empresa de comunicação pública da qual a TV Brasil é o carro-chefe.
A discussão acabou jogando luz sobre o paradoxo que rege a natureza jurídica da EBC. Criada em 2008, a EBC tem como missão se tornar uma espécie de BBC brasileira: uma empresa de comunicação pública, voltada à formação do pensamento crítico do telespectador, sem influência comercial ou política.
O problema é que a distinção entre público e estatal nunca foi muito clara no Brasil, o que torna difícil distinguir uma emissora pública de uma emissora estatal. E essa confusão está presente na própria lei de criação da EBC, que deu mais poderes ao conselho administrador da emissora, composto por membros nomeados pelo Palácio do Planalto, do que ao conselho curador, que é formado por representantes da sociedade civil e responsável por dar o caráter público da empresa. Para piorar, a EBC é vinculada à Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), órgão responsável por coordenar a publicidade do governo.
Tamanho paradoxo deixa claro que a EBC precisa ser reformulada. Para entender como isso seria possível, o Opinião e Notícia conversou com Chico Sant’Anna, jornalista e doutor em Ciência da Informação e Comunicação, e Eugênio Bucci, jornalista e professor de Comunicação da Universidade de São Paulo (USP).
Funcionários da EBC protestam por menos cargos indicados por governos
Funcionários da EBC protestam por menos cargos indicados por governos

Fortalecer a autonomia para blindar da ingerência
Para Sant’Anna, uma das medidas cruciais é garantir que a escolha da linha editorial e dos representantes do conselho curador da emissora ocorra de forma transparente e com mais participação da sociedade. Ele considera que os atuais critérios usados para definir ambas as coisas são nebulosos. “Embora se tenha uma convocação à sociedade para que ela apresente temas e um mundo da cultura e da comunicação possa apresentar seus nomes [como candidatos a compor o conselho curador], para mim, os critérios não são transparentes”.
Segundo ele, uma forma de mudar isso é adotar um modelo como o utilizado na TV Câmara francesa. “Era lançado um edital público a cada dois anos, onde pessoas se candidatavam à direção do canal, apresentando propostas de linha editorial e de orçamento. Essas propostas eram sabatinadas por uma comissão especial da Câmara francesa numa sessão transmitida ao vivo para todo o país. O projeto que viesse a ser aprovado teria autonomia pelos próximos dois anos”, diz Sant’Anna, ressaltando que a autonomia era garantida mesmo em caso de troca de governo.
Para Sant’Anna, além da transparência, a EBC também precisa de mecanismos que garantam sua autonomia e blindem a emissora da ingerência política, como ocorreu com outra emissora pública, a TV Cultura, de São Paulo. “Vários governos tentaram mexer na autonomia da TV Cultura e não conseguiram. Na gestão de Geraldo Alckmin, ele, não conseguindo mexer na gestão que lá estava, decidiu fechar a torneira do dinheiro. Mudou a lei que assegurava o repasse do percentual do ICMS para a TV Cultura. Então, é necessário ter mecanismos legais. Esse caso agora da EBC mostra a necessidade de se ter isso em legislação, porque não basta ficar só na boa vontade deste ou daquele governo”.
Mudar a natureza jurídica para definir o caráter público
Bucci, por sua vez, diz ser necessário mudar a natureza jurídica da EBC. Para ele, a empresa deveria deixar de ser uma empresa pública para se tornar uma fundação, como a TV Cultura. Isso porque, segundo ele, afirmar que a EBC é uma empresa pública, e não estatal, é apenas um “jogo de palavras”. “Toda empresa pública que pertença ao governo federal é uma estatal, uma empresa do Estado. E toda estatal é uma empresa pública. Embora a EBC tenha a vocação de ser menos estatal e mais próxima da sociedade, ela é uma estatal. A única diferença é que ela tem esse conselho curador, que é como uma consciência da sociedade dentro da organização, mas sua eficácia, seu poder de gerar consequências são muito reduzidos”.
Além de mudar a natureza jurídica, Bucci diz que a EBC precisa deixar de ser vinculada à Secom e passar a ser vinculada ao Ministério da Cultura. “Pode-se dizer ‘Ah, é um ministério como todos os outros’. Não é verdade. As atribuições do Ministério da Cultura não incluem fazer publicidade do governo. A gestão da cultura é incompatível com a gestão da imagem oficial do presidente da República. Somente países muito atrasados na evolução democrática é que admitem esse tipo de confusão. Se ela [a EBC] não fizer essas mudanças, acabará sendo fechada por esse governo ou pelo futuro e transformada numa agência de comunicação governamental pura e simples. E todo um trabalho feito ao longo dos últimos 15 anos vai por água abaixo”.
Reformulação sim, extinção não
Emissoras públicas fazem parte de sistemas democráticos
Emissoras públicas fazem parte de sistemas democráticos

Embora sejam necessárias mudanças, Sant’Anna e Bucci são contra a proposta estudada por Temer de fechar a TV Brasil e eliminar o conselho curador da EBC. Para eles, a emissora é um importante instrumento para a cultura e para assegurar o direito do cidadão de informar e ser informado previsto na Constituição.
“A notícia que é distante, lá nos rincões, que é preciso mandar avião, navio, ou mesmo notícias das periferias das grandes cidades, na maioria das vezes, é ignorada, salvo se for uma grande catástrofe. Porque a televisão comercial se guia pelo custo daquela notícia. Vale a pena eu gastar tantos mil reais para cobrir alguma coisa na periferia de uma grande cidade? Ou mandar uma equipe para cobrir alguma coisa no sertão nordestino ou no pantanal mato-grossense? O olhar do canal público já não é um olhar comercial, é um olhar de cidadania. Enquanto você constrói consumidores no canal comercial, você constrói cidadãos no canal público”, diz Sant’Anna, afirmando, porém, que a EBC deve investir mais em conteúdo regional. “A regionalização dela é muito fraca. Ela assumiu um padrão editorial das grandes redes nacionais. Aqui em Brasília ela assumiu o mesmo pecado dos outros canais comerciais que olham Brasília como sendo só a Esplanada dos Ministérios”.
Já Bucci afirma que as emissoras públicas fazem parte da democracia, como forma de dar voz a diferentes culturas que o mercado não conseguiria sustentar. “Até os EUA, que todos imaginam o paraíso das emissoras privadas, têm sistemas sólidos e tradicionais de emissoras públicas, como a PBS. A França tem a France Télévisions; o Reino Unido tem a BBC; a Alemanha a Deutsche Welle. As democracias que têm mais tradição têm sistemas públicos não comerciais de rádio e televisão. Porque a forma comercial de veiculação de notícias e bens culturais não preenche todos os campos da vida social de uma democracia. É pela mesma razão que é preciso existir fundação para sustentar uma orquestra sinfônica. Se fosse depender da venda de discos e de shows, não existiria nenhuma orquestra sinfônica no mundo. O mercado não sustenta todas as formas de expressão cultural”.
Fonte: Opinião e notícia

Santos cria canais de comunicação para avisar moradores sobre ressacas

Ação já é utilizada em morros da cidade e é bem sucedida. Ideia é que moradores façam o cadastro e fiquem prevenidos.

Ressaca causou danos em toda a avenida da praia de Santos (Foto: Reprodução / TV Tribuna)
Ressaca causou danos em toda a avenida
da praia de Santos (Foto: Reprodução / TV Tribuna)

A Prefeitura de Santos, no litoral de São Paulo, disponibilizou dois canais de comunicação para os moradores da Ponta da Praia receberem alertas de eventuais de ressacas. A medida foi adotada após a destruição provocada do último domingo (21), por conta da forte chuva e da alta da maré.
De acordo com informações da Prefeitura de Santos, a ideia é que todos os moradores do bairro façam um cadastro. Em casos de emergência, provocados por fenômenos naturais como ressacas de forte intensidade, os moradores irão receber alertas para se prevenir.
A ação já é utilizada em morros da cidade e, segundo a Defesa Civil de Santos, é bem sucedida. Portanto, pode ajudar na prevenção de acidentes como os que atingiram prédios, carros e clubes no último domingo.
Para efetuar o cadastro, os moradores devem ligar para o telefone 3208-1000 ou enviar e-mail para defesacivil@santos.sp.gov.br informando nome completo, endereço e telefone para contato.
Fonte: G1

Aplicativo para celular ajuda a salvar tartarugas marinhas

Tecnologia foi desenvolvida pelo ICMBio e já tem alcance internacional

Redes autônomas de comunicação e a luta pela descolonização midiática

Fórum Mundial de Mídia Livre, realizado no Canadá, debateu a importância de infraestruturas independentes para o exercício da liberdade de expressão.

Fórum Mundial das Mídias Livres de 2015: o direito à comunicação é o foco
Fórum Mundial das Mídias Livres de 2015: o direito à comunicação é o foco

Montreal, no Canadá, é chamada de Tiotia:keno idioma kanien’kehá:ka. Historicamente, a cidade era um lugar de encontro para os diversos povos originários do país, que sofrem até hoje os efeitos da colonização europeia e, posteriormente, norte-americana de seus territórios. Pois foi em Tiotia:ke que centenas de ativistas que defendem a liberdade de expressão e mudanças no sistema global de comunicações se reuniram este mês, na quinta edição do Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML).
Consciente do papel da mídia independente no enfrentamento ao conservadorismo e a discursos reacionários que crescem em todo o planeta, assim como da importância do acesso aos meios para a disputa de valores em qualquer sociedade, o fórum foi um importante espaço de troca de experiências em torno, justamente, do que pode ser chamado de “descolonização midiática”.
A expressão pode parecer distante da realidade brasileira, mas esta é uma ideia que ganha corpo cada vez mais em países e territórios que ainda são palco de disputas por soberania. Mais do que debater o papel dos meios de comunicação na resistência frente ao colonialismo ainda em curso nas mais diferentes regiões do mundo – a Palestina e os territórios curdos são um exemplo –, a luta pela descolonização midiática tem revelado experiências interessantíssimas de povos que têm se apropriado das novas tecnologias para construir suas próprias redes de comunicação, independentemente de governos e do mercado.
O princípio é antigo. Como relembrou Ramnat Bhat durante o FMML, o controle dos cabos de comunicação pelos ingleses no século XVIII foi central para a dominação da Índia. E o Telegraph Act, lei que regula o setor, datada de 1885, vigora até hoje no país. “Desde a independência da Índia, as leis que protegiam a infraestrutura de telecomunicação permaneceram intocadas. E isso tem a ver com liberdade de expressão”, afirmou.
Marcadas pela exclusão digital, comunidades indígenas de Oaxaca (México) perceberam que somente uma infraestrutura autônoma permitiria o acesso da população mais excluída à informação e ao exercício de sua liberdade de expressão. No México, cerca de 50 mil comunidades no país carecem do serviço telefônico em função da falta de interesse econômico por parte das operadoras. O processo se baseou no modelo de uma rede de rádios funcionando apenas com software livre, que chegou a 17 comunidades.
Depois, com base no argumento da comunicação como bem comum, conseguiram uma autorização provisória para operar uma rede de telefonia móvel na região. Recentemente, obtiveram a licença de operação para 15 anos. A infraestrutura foi construída a partir de doações da própria população.
“Parece utopia e algo muito distante, mas isso está sendo construído em várias comunidades”, contou Loreto Bravo, da Rádio Palavra, uma das emissoras que deu início ao processo. “As pessoas têm controle do território e sabem que estão exercendo seu direito. Um dos grandes desafios é construir as pontes entre as comunidades indígenas e as hackers, que dominam a tecnologia. Outra é decidir a política de gestão compartilhada da rede, mudar a mentalidade das pessoas, para que entendam que não se trata de uma relação de consumo e sim de um direito”, acrescentou.
Parte do dinheiro que está sendo arrecadado com os planos de celular – que custam infinitamente menos do que os oferecidos pelas operadoras comerciais –, por exemplo, é destinado à sustentação da rede de rádios comunitárias e contribuirá com um fundo para criar uma empresa comunitária de comunicação, que trabalhe com outras linguagens, onde o objetivo não seja o lucro e sim criar condições para o exercício do direito à comunicação pelos povos indígenas. Apesar da conquista da rede de telefonia móvel, os desafios no campo da radiodifusão persistem. Oaxaca conta, por exemplo, com 60 rádios comunitárias, mas apenas quatro possuem licença do Estado mexicano para funcionar.
Fórum Mundial de Mídia Livre: luta internacional pela liberdade de expressão (Bia Barbosa / Intervozes)
Fórum Mundial de Mídia Livre: luta internacional pela liberdade de expressão (Bia Barbosa / Intervozes)

“Precisamos olhar o espectro a partir de uma perspectiva social. O acesso a ele hoje custa tanto porque seu uso social produz valor. É uma extensão da nossa possibilidade de comunicar. E a razão pela qual não temos acesso ao espectro é porque ele é regulado como pedaços de terra vendidos às companhias. Se quisermos ter acesso à comunicação, temos que pagar por isso”, explica Peter Bloom, do grupo Rhizomatica, que viabilizou a rede móvel de Oaxaca. “Mas a legislação hoje nos permite reivindicar uma parte do espectro, e assim podemos usá-lo de muitas formas. Sempre falamos em ter acesso ao ar e usamos isso para TVs e rádios comunitárias, mas podemos fazer muito outros usos”, reforçou Bloom em sua palestra no FMML.
Conexões globais
Em Montreal, os coordenadores do projeto de Oaxaca puderam compartilhar sua experiência com outra bastante parecida, que está sendo desenvolvida no estado de Manitoba, no oeste do Canadá. Em Winnipeg, capital da província, o consórcio First Mile Connectivity também está construindo uma rede para os povos originários de Manitoba. Ali, somente 21 das 63 comunidades tradicionais – muitas acessíveis somente por avião – tem acesso à internet, a um custo altíssimo para a população local.
“Nos poucos lugares conectados, o acesso é via satélite e muito instável. Algumas pessoas pagam 300 dólares por mês por uma conexão. E há quem tenha que acordar de madrugada, quando a rede está menos congestionada, para baixar arquivos simples como um PDF”, contou Jonathan Fleury, que participa do projeto em Manitoba.
Para Peter Bloom, a luta por espaço na comunicação deve ser articulada internacionalmente: “temos que ampliar nossos horizontes. Não queremos só um pedacinho do espectro, mas uma mudança sobre o que deve ser feito com ele, pensando na comunicação como um direito social. Conforme a tecnologia avança, temos que poder usar mais”.
Na Índia, assim como no Brasil, com a comunicação pública, o espectro vem sendo cada vez mais monetizado e frequências de TV estão sendo vendidas para conexões 4G. “O que antes era oferecido como um serviço gratuito para a população agora será destinado um serviço pago. Fazer o enfrentamento da política em nível individual não será suficiente. Temos que ir mais fundo em nossa articulação global”, acredita o indiano Ramnat Bhat.
O Fórum Mundial de Mídia Livre é um espaço exatamente pra isso. Criado no âmbito do Fórum Social Mundial, em 2009, em Belém, o FMML tem reunido um número crescente de jornalistas, organizações da sociedade civil, hackers, desenvolvedores de software livre, pesquisadores e comunicadores populares e independentes que atuam para transformar essa realidade e garantir o exercício universal do direito à comunicação.
O Intervozes é uma das organizações que integra o comitê internacional de organização do FMML, que já aprovou, para o próximo período, uma série de atividades e encontros. Um deles deve acontecer exatamente em Oaxaca, onde o tema da descolonização midiática será uma vez mais centro do debate.
*Bia Barbosa é jornalista e representa o Intervozes no processo do Fórum Mundial de Mídia Livre.
Fonte: Carta Capital

Wyllys defende Comunicação Pública ao assumir frente parlamentar

Segundo deputado do Psol, prioridades serão tocadas “num contexto em que as regras do jogo democrático foram rompidas por um golpe de Estado e por um ambiente de ódio agressivo”
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Em cerimônia realizada na tarde de hoje (23), a deputada federal Luiza Erundina (Psol-SP) transmitiu a coordenação da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular (Frentecom) ao deputado Jean Wyllys (Psol-RJ).
A parlamentar paulista, candidata à prefeitura de São Paulo, ressaltou a importância de a frente ser coordenada por um “jovem parlamentar que tem presença nas mídias sociais”. Ela destacou também a necessidade de o colegiado se consolidar, “num dos mais graves momentos de crise multifacetada da história do nosso país”.
Ao assumir a frente, Jean Wyllys disse que, entre as prioridades de sua gestão, está a “defesa intransigente da comunicação pública, fazendo distinção entre comunicação pública e comunicação institucional”. O parlamentar citou a passagem de Eduardo Cunha pela presidência da Câmara como um exemplo de como não deve ser o tratamento da comunicação num parlamento.
“Sob a gestão dele, os veículos de comunicação da Câmara se transformaram em veículos de comunicação institucional a serviço dele e de seus interesses.” Wyllys propõe a substituição da figura do secretário de Comunicação da Câmara, cargo criado por Eduardo Cunha, por um conselho formado por deputados de todos os partidos e tendências da Casa. Cunha não apenas criou o cargo como nomeou o aliado Cleber Verde (PRB-MA) para o cargo.
“Durante a gestão de Cleber Verde vimos uma censura imposta a parlamentares de partidos progressistas ou se que se opunham ao golpe parlamentar travestido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff”, disse Wyllys.
Segundo o novo coordenador da Frentecom, as prioridades serão “tocadas num contexto em que as regras do jogo democrático foram rompidas por um golpe de Estado que está em vias de conclusão, por um aumento da anti-intelectualidade nesta Casa, por um ambiente de ódio agressivo que não permite o avanço legislativo para ampliar direitos, direitos humanos principalmente”.
Ele propõe diálogo com outras frentes, como a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos e a Frente Parlamentar  Mista pela Cidadania LGBT. “Os membros dessas frentes são praticamente os mesmos. De 513 deputados, eu diria que 100, sendo otimista, dividem-se entre as frentes progressistas que buscam ampliar direitos na Casa”, disse Wyllys.
Ele afirma pretender também levar para o diálogo outros atores da sociedade civil não organizados em instituições, mas que são ativistas pelo direito à comunicação e pela liberdade de expressão. Como novo coordenador da frente, o deputado do Psol defendeu como essencial da luta do colegiado a defesa de uma internet livre, aberta e neutra.
E também “combater a perseguição aos blogueiros progressistas e aos ativistas de comunicação”. “Isso está em curso junto com o golpe, criminalizar os blogueiros progressistas  e os ativistas de comunicação. Contando para isso com os meios de comunicação de massa concentrados nas mãos de plutocratas. Perseguir blogues e sites progressistas ou que se opuseram ao golpe é uma maneira de nos silenciar”, declarou.
Fonte: Brasil247

O meio já não é meio nem mensagem

Hoje o consumo de notícias é incidental. O acesso às informações jornalísticas é uma prática secundária entre os jovens. A leitura é rápida e superficial. Ás vezes, basta o título. Ler uma notícia inteira é cada vez mais raridade.
Entre os hábitos de informar-se, que dominaram o século passado, o peso dos meios era forte: não diziam para a gente o que pensar, mas sim sobre o que pensar. Hoje o consumo noticioso é “incidental”: o acesso à informação deixa de ser uma atividade independente e passa a ser parte da sociabilidade das redes. Os jovens não usam os meios, mas sim vivem em ambientes digitais onde não há contextos, nem hierarquias, e sim fragmentos de histórias e opiniões que são escaneadas e, com muita sorte, lidas.
Estas e outras conclusões são apresentadas em um estudo qualitativo realizado pelos pesquisadores Pablo Boczkowski, Eugenia Mitchelstein e Mora Matassi, do Centro de Estudios sobre Medios y Sociedad (MESO), da Argentina.
Proliferação de telas e conteúdos, nebulosas de likes e retweets, a voz dos amigos, a presença dos grandes meios. Leituras intercaladas e breves no ônibus, no metrô, ou enquanto se espera que mude a luz do semáforo.  O celular sempre ali, o computador ocupado com o trabalho ou estudo, o televisor como música de fundo e o papel quase objeto de museu.
Como é a experiência de consumo de notícias dos jovens na Argentina e o que acontece em suas práticas cotidianas? Que sentidos, interpretações, usos e hábitos se cristalizaram na atualidade?
O MESO, em uma iniciativa conjunta com a Universidade de San Andrés e a Northwestern University, realizou entrevistas regulares, em profundidade, para indagar sobre os consumos de meios e bens culturais. Até este momento foram realizadas 24 entrevistas com jovens de 18 a 29 anos na Argentina, a maioria de classe média e média alta. Os resultados iniciais refletem uma série de práticas cotidianas e sentidos que resumimos como o consumo incidental de notícias. Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola, incidental significa “que vem em algum assunto e tem alguma relação com ele”; e “de uma coisa ou de um fato: acessório, de menor importância”.
A maioria dos entrevistados acessa notícias por meios digitais, usualmente através de dispositivos móveis, como uma prática secundária de seu monitoramento das redes sociais. Não entram em contato com o universo digital para buscar notícias, e sim com aquelas que se encontram com eles nos feeds de suas redes, misturadas com piadas e anedotas de amigos, pedidos de ajuda, fotos de viagens, animais e comidas. Às vezes clicam nos títulos e dedicam pouco tempo para ler a informação, além do título e da chamada, para imediatamente voltar ao Facebook ou interromper o consumo midiático porque há que descer do transporte e começar a caminhar.
Esta incidentalização do consumo de notícias gera uma perda de contexto e hierarquia do conteúdo jornalístico na experiência do público. O diário, o programa de rádio e a televisão desaparecem como uma unidade que apresenta uma visão ordenada e representativa da atualidade. O que resta são pedaços de histórias e opiniões, imersas em um mosaico gigantesco de informação de todo tipo e de toda procedência.
A notícia incidental marca uma quebra com a matriz que uniu tecnologia, informação, política e vida cotidiana durante o século XX. Para entender melhor tais implicações, é necessário primeiro ver o que dizem os protagonistas.
O celular na cabeça
“Celular (1), laptop (2), televisão (3)”. Esta foi a resposta de Sofia, uma estudante universitária de 20 anos, quando pedimos um ranking dos dispositivos que usa em sua vida cotidiana. A primazia do celular foi evidente em quase todas as entrevistas. “É como uma extensão de minha mão”, disse Maria, outra universitária de 22 anos.
A tecnologia é chave para entender o consumo de notícias. Desde a invenção da imprensa há mais de 500 anos, a maior parte das notícias é comunicada através de um objeto mediático como o papel, o rádio, a televisão, o computador e o celular. Estes distintos objetos, juntos às redes organizacionais, culturais e narrativas que os produzem e dão sentido em distintos momentos históricos, configuram o entorno tecnológico no qual acontece o consumo de notícias. Para compreender a maneira na qual os jovens se informam sobre a atualidade é necessário analisar como usam os dispositivos tecnológicos.
Tais usos não se depreendem somente das propriedades dos artefatos. Joana, de 23 anos, explica: “Se quisesse usar mais o computador, tranquilamente poderia deixar de acessar as aplicações no celular e usá-las no computador. Posso transferir as atividades que tenho de um a outro, mas é mais cômodo fazê-lo no celular. Acostumei a fazer algumas coisas no celular, outras no computador e outras na televisão.”
O caráter multiuso do celular, sua condição portátil e onipresente, e sua conectividade principalmente são os principais argumentos dos jovens para assinalar o primeiro lugar. “Faço tudo com o celular. Confiro e respondo meus emails, leio Twitter, leio o jornal, tudo com o celular”,  afirma Ana, 21 anos. Isto se vincula com a necessidade de sentirem-se conectados, como expressa Carolina, estudante de arquitetura: “O que mais uso é o celular porque permite comunicação constante, com família, amigos, chefe”.
O computador, por outro lado, está associado a usos instrumentais (fundamentalmente, trabalho e estudo) e é menos constante que o celular. Nas palavras de Martín, estudante universitário, de 22 anos: “Uso bastante pouco o computador. Sobretudo porque não funciona bem. Mas às vezes tenho que fazer algo do trabalho em casa, ou algo da faculdade”. Maria também diz que o computador é somente “para fazer coisas da faculdade”. Esta associação com fins instrumentais produz, em alguns casos, um menor uso do computador fora do trabalho e do estudo, como deixa entrever Marina, graduada em economia, 22 anos: “Eu usava muito o computador. Agora, a verdade é que estou todo o dia frente a um computador no trabalho, e o que menos quero fazer no tempo livre é usá-lo”.
A televisão aparece em terceiro lugar e geralmente como um som de fundo que acompanha a realização de tarefas cotidianas e cujo conteúdo só desperta atenção se passa algo interessante. Maria diz que o televisor fica ao fundo “e se há algo que me chama atenção eu sento”. Estevão, estudante universitário, assiste “TN ou às vezes Infama. Olho quando vejo que há algo que me interessa e aí presto atenção”.
Em um mundo dominado por telas, o papel aparece relegado na vida dos jovens. Maria conta que lê jornal regularmente, mas “sempre no computador, em papel nunca”, apesar do fato de, em sua casa, comprarem o diário impresso. Prefere o formato digital: “pela comodidade de não ter as folhas enormes, de ter que abrir os diários (…) e porque, como está muito mais resumido, você pode ver mais rápido o que deseja ler, me parece muito mais eficiente. Na tela aparecem diretamente os títulos e se te interessa pode ver mais em profundidade, e se não, não tens que ver o título com todo o texto abaixo”.
O ritual dos domingos é, para alguns, uma exceção a tais hábitos. Como disse Sofia, “o papel eu toco de vez em quando, geralmente nos finais de semana porque chega a meus pais e eles fazem a leitura no café da manhã, que eu tomo com eles”.
Encontrar a notícia nas redes sociais
“Esta manhã, antes de entrar no curso, estava na cafeteria e lendo com o celular o Twitter.
De que falava Sofia?
Da ocasião mais recente em que havia lido uma notícia.
As redes sociais, consultadas sobretudo nos dispositivos móveis, se posicionam como o modo mais comum pelo qual os jovens acessam informações jornalísticas. Em vez de sentar-se, ler o diário, ver a televisão ou escutar o rádio, a maioria dos entrevistados se encontra com as notícias de forma não intencional, como parte de seu ato corriqueiro de checar constantemente o feed de conteúdos do Facebook ou Twitter.
Não vão às redes para ler notícias, senão para se interar da atualidade em um encontro quase fortuito com posts de jornais e agências, e também de contatos virtuais. Maria comenta que “em geral, entro (nos sites de notícias) através do Facebook porque alguém compartilhou alguma notícia.  Clico e depois de entrar me detenho nos títulos que estão na página e se há algum que me chama a atenção, entro”.
Consultado sobre a notícia que havia lido mais recentemente antes da entrevista, Javier um empregado no setor de comércio, de 28 anos, disse que foi ”em relação ao bloqueio da Frente Justicialista dando quórum para pacto com os holdouts” (holdouts são credores rígidos e inflexíveis que se negam a participar da reestruturação de uma dívida, apelidados de “abutres” na Argentina, durante o governo Cristina Kirchner). E acrescenta: “estava no Facebook e me pareceu que alguém compartilhou esta notícia. Ingressei porque me interesso ver, na realidade, quem ou quais políticos davam quórum para aprovar o pagamento aos holdouts”.
A normalização do consumo incidental de notícias mediada pelas redes sociais se faz evidente também no discurso de Romina, estudante universitária, de 19 anos, que percebe como ”antiga” sua própria prática de visitar as páginas web dos jornais. “Se estou querendo seguir uma notícia abro La Nación que diz: ‘último momento’ e te vão refrescando de informação a cada dois segundos. Assim é como o faço hoje (…) Sou um pouco à moda antiga” .
A combinação de celular e redes sociais gera um acesso quase onipresente na atualidade. Nas palavras de Ana: “eu sempre uso nada mais do que o celular e me informo muito através do Twitter.  Por exemplo, de manhã, a primeira coisa que faço é entrar no Twitter e olhar os Trending Topics. Depois, quando vou no transporte público (que é bastante longo o trajeto). E também quando estou entediada, sem fazer nada, fico no Twitter”.
Viver nos meios
As palavras de Ana fazem alusão a jovens que não se posicionam como sujeitos que usam os meios, mas sim que vivem neles, como se tratasse de um ambiente digital semelhante aos ambientes urbanos e naturais que englobam suas vidas cotidianas. Abril, estudante universitária, de 19 anos, afirma que está nas redes sociais “todo o tempo. Agarro o celular e entro todo o tempo”.
Este estar nas redes sociais é percebido como uma necessidade social da qual é muito difícil escapar. Romina comparte uma anedota que expressa esta necessidade. “Durante dois meses apaguei o meu Facebook. E depois me dei conta do quanto que me custava. Bem, queremos sempre lutar contra o sistema, mas não se pode viver fora dele”.
Vários entrevistados associam o Facebook a um objeto cotidiano cuja utilidade é difusa. Javier expressou assim: “o Facebook realmente é um hábito, mas não tem um propósito realmente para mim”. Esta falta de propósito explícito convive com a atitude de checar permanentemente. Ao ser perguntado sobre qual momento do dia está na rede, Esteban responde: “na realidade em qualquer momento porque estou continuamente com o celular ou o computador, então entro nas redes sociais e vejo; o mesmo com o Whatsapp que me enviam vídeos e vou assistindo tudo”.
Práticas de leitura
Os jovens hoje somente leem notícias sem rotina predeterminada, algo bem distinto do que se consagrou durante a segunda metade do século XX: a leitura do jornal pela manhã, antes de ir para o trabalho, ou a universidade, o programa de rádio ou o jornal no trânsito ou desde as primeiras atividades diárias, e o programa de televisão à noite. Laura comenta: “Não tenho tempo. Se entrei e me interesso, eu lerei ou então sairei, ou seja, não é que eu tenha uma quantidade de tempo dedicado a isso, mas sim que há dias que não leio nada e há outros em que leio tudo o que me aparece”.
Como nos referimos anteriormente, às vezes os finais de semana marcam uma quebra com estas práticas dominantes de leitura. Ana conta que “nos domingos leio muito mais diários que durante os outros dias da semana. Todos on line. Em geral, para informar-me, nos dias de semana, Página/12 não me parece muito prático porque as notícias são muito extensas, a plataforma no celular torna a leitura chata. Mas nos finais de semana têm conteúdos de opinião. Então, na realidade, leio não para informar-me das coisas, mas sim para ler opiniões”.
Os entrevistados dizem ler as notícias de forma breve, interrompida e parcial. Maria conta: “Leio o título, o que está no alto e depois em diagonal o conteúdo. Se há algum parágrafo que me chama muito a atenção o releio; porém si… no geral, em diagonal”. Ao menos a priori, e em função do grau de interesse inicial que suscitam as distintas notícias, o que é primordial é “dar uma olhada”,  como expressa Lucila, 27 anos, uma produtora de televisão: “Eu faço um escaner nos títulos. E depois, se algo particularmente me interessa, entro”. Marina concorda: “Quase nunca leio uma notícia inteira, salvo se me interessar muito. Por exemplo, se caiu um avião e me interessa muito saber o que aconteceu, leio toda a notícia. Mas isso é muito raro. Leio somente a primeira parte, o título e o primeiro parágrafo”.
Muitas vezes, basta o título. Maria estava seguindo o tema dos Panamá Papers “mas não com tanto detalhe. Ou seja, por exemplo, não sei bem que disse Macri com respeito ao tema. Sei, por exemplo, o que disse Elisa Carrió porque alguém compartilhou a notícia, mas li o título, tampouco entrei”.
Estas práticas de leitura resultam na perda de contexto e hierarquia das notícias, que aparecem mescladas com conteúdos de todo o tipo.Tal como aponta Ana, “no Facebook se vê de tudo, de um cãozinho roubado a tudo”. E isto se vincula com a perda de certo lugar privilegiado e de autoridade do conteúdo noticioso, envolto em uma “massa de informação ou desinformação”. Como disse Rodrigo, 29 anos, empregado no comércio, “leio o que os outros compartilham, geralmente no Facebook porque é agora uma massa de informação ou desinformação. Porque eu creio que as vezes te desinforma um pouco, porque sobem cada coisda… Ali a gente pode subir o que quiser, então às vezes me parece que as coisas não estão boas, para mim, não estão”.
Amanhã é melhor?
O surgimento da notícia incidental marca uma ruptura com as práticas de consumo de meios de comunicação que dominaram o século XX. Elas constituíam-se numa atividade autônoma como ler o jornal, ou olhar a televisão, e para as quais se dedicava tempo considerável. Aconteciam em um lugar e tempo relativamente fixos – no lar, mas também em locais como  cafés ou nos transporte públicos – e poderiam estar organizadas em torno de atividades domésticas e públicas rotineiras.
A notícia incidental implica uma quebra desta lógica no encontro com a atualidade: o acesso à informação deixa de ser uma atividade independente para ser parte da sociabilidade das redes; a quantidade de momentos de acesso se multiplica, mas o tempo em que cada indivíduo se dedica é breve; o consumo noticioso acontece em qualquer lugar e momento onde exista alguns segundos livres; e tudo isso sucede de maneira mais espontânea que rotineira, padronizada.
A notícia incidental não é a última etapa neste processo de evolução histórica, senão a fase mais recente de uma transição mediática sobre a qual não podemos antecipar quando e como vai se concluir. Se a direção desta tendência continuará, poderá mudar o equilíbrio que o papel das notícias tem na conexão entre a comunicação dos meios e aquela produzida pelas pessoas. Como os estudos de opinião do século XX revelaram, a influência dos meios no público está mediatizada pelas conversas na vida cotidiana.
Precisamente pelas formas de consumo que dominaram o século passado, o peso relativo dos meios era forte na equação; não tanto para dizer para as pessoas o que pensar, senão, pelo menos, sobre o que pensar. A perda de contexto e hierarquia que se manifesta no consumo incidental de notícias altera esta relação de forças a favor da comunicação entre as pessoas. O ascendente dos contatos nas redes sociais se soma às relações da vida cotidiana como fontes de influência. Isso carrega um retrocesso no poderio dos meios jornalísticos e um aumento na incidência das redes sociais como Facebook e Instagram, as quais moldam o menu informativo selecionando distintas entradas nos feeds de suas membros.
Uma transição deste tipo gera incerteza na equação mídia e comunicação política. Que sentido tem investir recursos para gerar conteúdos extensos quando boa parte do consumo não somente entra pelas redes e ainda permanece nelas, e quando são as próprias redes que recebem a maior parte dos investimentos publicitários? Qual é a dinâmica central da comunicação política quando os candidatos constroem narrativas, afiliações e mobilizações através das redes, mais do que pelos meios jornalísticos – como, por exemplo, fez a campanha presidencial de Mauricio Macri?
A incerteza abre novos horizontes. A perda de contexto e hierarquia da notícia e a expansão dos vínculos nas redes sociais implicam renovadas tramas de comunicação, sociabilidade e cidadania nas quais a lógica do algoritmo despreza a lógica editorial.
O rebaixamento dos meios na matriz que une pessoas e o poder político e empresarial poderia fomentar uma atitude de maior ceticismo por parte do público e de maior transparência por parte dos atores chave. Sem dúvida, isto ocorreria somente se o público mantivesse uma atitude crítica a respeito dos prejuízos inscritos nos algoritmos das redes sociais. Se assim fosse, talvez estivéssemos frente ao surgimento de uma nova cultura mediática mais livre, menos opaca, com menos hierarquias, na qual a busca de evidencia e destaque conviveriam com uma confiança distribuída de maneira mais diversa entre uma multiplicidade de atores.
Talvez, parafraseando a canção de Luis Alberto Spinetta, “ainda que me forcem, eu nunca vou dizer que todo o tempo passado foi melhor, amanhã é melhor”.
(obs. os autores agradecem a Victoria Andelsman, Sofía Carcavallo, Rodrigo Gil Buetto, Camila Giuliano, Belén Guigue y Silvana Leiva, assistentes de pesquisa no MESO, por sua colaboração na realização, transcrição e análises preliminares das entrevistas em profundidade; e a Amy Ross, Celeste Wagner, Victoria Andelsman, Silvana Leiva e Sofía Boczkowski por seus comentários sobre versões anteriores deste artigo)
 
Fonte: Revista anfibia

Especialistas em direitos humanos pedem que países regulamentem publicidade infantil

Publicidade dirigida a menores pode levar a compra de produtos supérfluos, endividamento das famílias e consumo excessivo de alimentos industrializados que prejudicam a saúde das crianças.
Especialistas independentes da ONU pediram proibição da propaganda e do patrocínio de fabricantes de álcool, de tabaco e de alimentos não saudáveis nas escolas e no contexto de eventos esportivos infantis, bem como de outros eventos que possam ser frequentados por crianças.

Foto: PIXABAY
Foto: PIXABAY

Por ocasião do Dia Internacional da Juventude, comemorado na última sexta-feira (12), especialistas da ONU chamaram a atenção para o impacto da publicidade sobre as crianças, que são incentivadas desde cedo ao consumo excessivo e ao endividamento familiar. Os relatores pediram aos Estados-membros que regulamentem as propagandas dirigidas aos menores.
“Tais campanhas comerciais têm o potencial de moldar o comportamento de consumo e financeiro das crianças a longo prazo e elas estão crescendo em número e alcance,” afirmaram o especialista independente das Nações Unidas para dívida externa e direitos humanos, Juan Pablo Bohoslavsky, e o relator especial sobre o direito à saúde, Dainius Puras.
Os especialistas alertaram que muitas propagandas dirigidas aos menores promovem o consumo de alimentos com alto teor de açúcar e pouco valor nutritivo, que podem causar sérios danos à saúde da criança e também a longo prazo. Segundo eles, a regulação da publicidade de produtos alimentares não só melhoraria a saúde dos pequenos, como também reduziria as despesas com cuidados médicos.
Além disso, Bohoslavsky e Puras observaram que, depois de serem expostas a um grande número de anúncios, as crianças podem pressionar seus pais a comprar itens que não fazem parte do orçamento familiar e tampouco são pedagogicamente necessários. Bens supérfluos acabam sendo adquiridos mesmo em detrimento de outras necessidades domésticas importantes.
Os relatores lembraram que, em muitos países, a dívida privada das famílias é um sério problema social, tornando a aquisição de produtos de necessidade básica inacessível. Dívidas familiares excessivas também podem implicar em uma crise de dívida pública, alertaram.
“Pedimos que os Estados proíbam a publicidade, a promoção e o patrocínio de fabricantes de álcool, de tabaco e de alimentos não saudáveis nas escolas e no contexto de eventos esportivos infantis, bem como em outros eventos que possam ser frequentados por crianças”, ressaltaram os especialistas, em conformidade com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Pedimos também que os países criem diretrizes que restrinjam ou minimizem o impacto da comercialização de alimentos não saudáveis, de álcool e tabaco em geral. Mais amplamente, apelamos às nações que regulamentem a publicidade dirigida às crianças, de acordo com o dever dos Estados de proteger os menores de danos”, concluíram.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), do ponto de vista psicológico, as crianças não se tornam mais felizes por adquirirem mais mercadoria.
Fonte: ONUBR

Com foco no direito do cidadão à informação, à participação e no dever do Estado de prestar contas de suas ações, foi criada a Associação Brasileira de Comunicação Pública - ABCPública.