Experiências em comunicação popular no Rio são relatadas em livro

Veículos da Maré, Santa Marta, Alemão e Rocinha são alguns dos apresentados

Núcleo Piratininga de Comunicação propõe olhar sobre comunicação popular no Rio / Divulgação
Núcleo Piratininga de Comunicação propõe olhar sobre comunicação popular no Rio / Divulgação

Na semana passada, o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) lançou um livro que apresenta um olhar sobre a comunicação popular no Rio de Janeiro. Para além das questões teóricas, a obra faz um mapeamento de diversas experiências e iniciativas espalhadas pela cidade. O livro, que tem como título “Experiências em comunicação popular ontem e hoje: uma história de resistência nas favelas cariocas”, foi escrito a muitas mãos, em um trabalho coordenado e orientado pela jornalista Claudia Santiago, uma referência nacional no assunto.
A obra está centrada no debate sobre a comunicação popular e põe em questão conceitos e definições sobre o tema. Depois, apresenta um panorama completo de experiências em favelas de diversas áreas da cidade. Passando pela Rocinha e Santa Marta, na zona sul, vai para a Tijuca, Jacarepaguá, Alemão, Maré, e outros veículos. As entrevistas com os protagonistas dessa história são intercaladas com a pesquisa em arquivo. Tudo foi escrito em uma linguagem acessível para todos aqueles que se interessam pelo tema.
Papo reto
A jornalista Renata Souza, doutoranda em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), assina o prefácio da obra.
Segundo Renata, o livro dá o ‘papo reto’ sobre a comunicação dos trabalhadores, dos favelados. “Um papo reto, sem curva ou reticência, é aquele que forma e informa sem ‘mimimi’, que vai direto ao ponto de interesse: a luta pelo direito à vida e à voz”, diz a pesquisadora.
Renata já foi editora do jornal comunitário O Cidadão, que circula pelas favelas que compõem a Maré, onde mora. “A luta por direitos fundamentais e elementares à vida são os ingredientes que tornam a comunicação popular indispensável em nossa sociedade”, explica.
O livro recebeu apoio da Fundação Rosa Luxemburgo e pode ser encontrado na Livraria Antonio Gramsci: Rua Alcindo Guanabara, 17, térreo Cinelândia. Mais informações em http://livrariagramsci.com.br
Fonte: Brasil de fato

Lançamento: Livro destaca a importância da comunicação para projetos sustentáveis

Projeto que nasceu como tese de doutorado na ECA/ USP propõe um novo paradigma para a comunicação em licenciamentos ambientais
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A editora Difusão acaba de publicar um livro inédito com o título “Planejamento Estratégico de Comunicação para o Licenciamento Ambiental”, de autoria de Backer Ribeiro Fernandes. O texto é baseado em sua tese de doutorado, defendida na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) sob orientação da professora e diretora da ECA, Margarida Kunsch. O livro propõe um novo paradigma na comunicação para os licenciamentos ambientais e defende a exigência de um plano de comunicação que compreenda os interesses dos empreendedores, do governo e da sociedade.
A publicação chama atenção, pois busca compreender os conceitos que nortearam o planejamento da comunicação nos diferentes EIA´s (Estudos de Impacto Ambiental) e RIMA´s (Relatórios de Impacto ao Meio Ambiente) pesquisados, e avalia se, de fato, a comunicação promoveu a participação da sociedade no processo de licenciamento ambiental. Para isso, o autor desenvolveu uma pesquisa intensa para saber se os planos ou programas de comunicação puderam garantir a troca de informações e a participação da sociedade nos debates conforme prevê a legislação ambiental. O tema se mostra relevante e atual, principalmente, devido as recentes discussões trazidas pelo Senado, Câmara e CONAMA, com propostas de alterações nas leis que impactam o licenciamento ambiental e sustentabilidade no Brasil.
Nos primeiros capítulos, o livro busca conceituar, refletir e avaliar o universo do licenciamento ambiental, bem como situar a comunicação como fator fundamental para garantir e engajar a sociedade na promoção da sustentabilidade de empreendimentos que impactam o meio ambiente. Em seguida, apresenta a pesquisa de maneira didática, por meio da análise dos planos e programas de comunicação contidos nos EIA´s e Rima´s desenvolvidos em São Paulo entre os anos de 1987 a 2011, perfazendo um total de 25 anos desde a implantação do processo pelo governo estadual.
Os capítulos seguintes fazem algumas considerações e apresentam os resultados das pesquisas. É um ponto de destaque, pois mostram que não há um eixo norteador para a elaboração dos planos e que cada empreendedor os faz à sua maneira. Segundo Backer, os resultados revelaram deficiências nos processos de comunicação. “Em geral, os planos não deram conta do tamanho dos empreendimentos, bem como do alcance de seus impactos”, afirma. “A comunicação assumiu um caráter meramente informativo e de divulgação de mensagens do interesse dos empreendedores, provavelmente atendendo só as determinações legais de informar e tornar públicas as informações”, completa.
Diante de todo este contexto, ao final do livro, o professor propõe um plano de comunicação ancorado em três etapas: 1 – diagnóstico sobre o empreendimento e o contexto que o cerca; 2 – planejamento das estratégias e ações; 3 – gestão estratégica da comunicação na sua implementação e controle. Backer defende que a comunicação deve iniciar ao mesmo tempo em que se iniciam os demais estudos para o EIA/RIMA. “É preciso dialogar com a sociedade e ouvir suas propostas, debater ideias que possam melhorar o empreendimento, saber exatamente onde mitigar e compensar os danos ambientais. Ouvir algumas lideranças e técnicos locais trazem boas soluções que muitas vezes os profissionais contratados não conseguem perceber. É uma consultoria gratuita”, afirma.
Segundo a professora Margarida Kunsch, o livro apresentou uma questão inédita no contexto das audiências públicas, que foi discutir o papel da comunicação frente aos desafios da sustentabilidade nos empreendimentos de infraestrutura em São Paulo. “É preciso um planejamento estratégico da comunicação para que o licenciamento ambiental cumpra seus objetivos de tornar público os projetos, de garantir o debate, a informação e a participação do público para que manifeste suas opiniões”, defende.
Além das audiências públicas no final do processo, é importante a realização de fóruns democráticos que garantam a participação da sociedade. Segundo o professor, “nem todos os interessados conseguem participar das audiências no dia, local e horário estabelecidos pelo órgão licenciador. Mesmo com toda a tecnologia de comunicação digital e online disponível ela ainda é pouco utilizada para esse propósito, o que mostra que esse formato está obsoleto e não garante a participação da sociedade como determina a legislação”. O livro termina com uma proposta de planejamento de comunicação que possa servir de referência e orientação para os estudos ambientais de futuros empreendimentos no Estado de São Paulo.
Os desafios agora são levar conceitos para a prática. Para isso, Backer criou o Instituto Communità, um braço social da empresa Communità Comunicação Socioambiental, na qual ele é um dos sócios fundadores e atual diretor. O instituto desenvolve diversas ações de capacitação para promover o conhecimento sobre temas socioambientais, seja por meio de coorientações a estudantes e pesquisadores, seja realizando palestras gratuitas nas universidades, dentre outras atividades. Ele também é membro do Observatório de Comunicação, Responsabilidade Social e Sustentabilidade (SustenCOM) da ECA/USP, criado pela Profa. Margarida Kunsch, que reúne pesquisadores para discutir as correlações entre os processos de comunicação e a sustentabilidade, além de acompanhar processos e políticas públicas que estão em andamento sobre essa temática.
Um evento de lançamento será realizado em 30 de maio, na Livraria da Vila (unidade Fradique Coutinho), das 19h às 21h30, para celebrar a publicação do livro e reunir pessoas interessadas para realizar um bate-papo sobre o tema. Ao final será servido um coquetel para os participantes.
Estarão presentes a Prof.ª Margarida (ECA/USP), Eliel Cardoso (EMTU) e Dra. Tatiana Barreto Serra (Ministério Público do Estado de São Paulo), e é claro, o autor, Prof.º Dr. Backer Ribeiro.
Serviço:
Lançamento do livro: Planejamento Estratégico de Comunicação para o Licenciamento Ambiental
Local: Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915 (12 min. do metrô Fradique Coutinho)
Data: 30/05/2016
Horário: 19h às 21h30
Realização: Communità Comunicação Socioambiental
Apoio: ECA/USP, SustenCOM, Conrerp 2ª Região, ABRP, Aberje, Livraria da Vila
Sobre a Communità Comunicação Socioambiental:
www.communita.com.br / Facebook / Linkedin
institucional@communita.com.br / (11) 4262 0607
Fonte: SEGS

Comunicação para a transparência

Professor Marcondes Neto lança novo livro “The Business of Transparency”
Uma das mudanças mais contundentes enfrentadas por governos, empresas e ONGs, neste terceiro milênio, é a demanda por transparência: “O atributo parece irresistível. Muito se promete, mas muito pouco se entrega…”, diz o autor.
Exigência advinda de escândalos de corrupção governamental, como os recentes casos ucraniano e brasileiro, e de falências que abalaram o mercado de capitais, como nos casos Enron e WorldCom – e que geraram a Lei Sarbannes-Oxley, “a transparência, como um valor, como um princípio, e, também, como direito e como dever, veio para ficar”, completa Marcondes Neto – que é professor da disciplina ‘Comunicação para a Transparência’ no Mestrado em Contabilidade e Gestão da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
A outra grande mudança que vivemos diz respeito à brutal expansão das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) – juntando Big Data, internet móvel popularizada e redes sociais que, combinadas, fazem surgir novos tipos de negócios.
Tais fatos, combinados, mudaram a face e o modo de ser de todas as organizações humanas – e de suas relações, que agora são públicas –, passando a deter meios próprios para exercer o papel de emissoras, numa inversão total do clássico Modelo de Comunicação (emissor-meio-receptor).
O que o autor propõe é um novo modo de abordagem das potencialidades e possibilidades da Comunicação. Não mais uma oferta em termos de técnicas, mas, antes, uma análise das demandas comuns a todos os indivíduos e organizações que necessitem exercer uma face e uma voz públicas: reconhecimento social, relacionamento com públicos-chave, relevância no mercado e reputação administrada. Tudo isso integrado, num novo Modelo, de ‘4 Rs’, que ele intitula ‘Resumo de Relações Públicas Plenas’ – o que nada mais é que a formação brasileira – única no mundo – de profissionais de RP (relações públicas). Marcondes Neto formou errepês por 25 anos, até 2009.
Com um estudo iniciado em 2010, provocado pelas discussões sobre novas diretrizes curriculares para os cursos de Comunicação, o pesquisador – agora professor associado na Faculdade de Administração e Finanças da UERJ, chegou à conclusão que, para além das demandas legais por publicidade de certos atos das organizações e dos regulamentos de transparência impostos pelo contexto aberto de bolsas de valores – o que denomina como sendo de uma visão ‘passiva’ –, é fundamental acrescentar uma ação comunicacional que ‘entregue’ satisfações públicas aos públicos-chave das organizações, ditos ‘stakeholders’, no exercício de uma transparência que intitula como ‘ativa’.
O livro sai justamente agora, quando as novas diretrizes do MEC para as áreas de Jornalismo e Relações Públicas entram em vigor, encerrando o ciclo ‘guarda-chuva’ do ensino da Comunicação ‘Social’ (visão imposta pelo regime de 1964), e liberando ambas as áreas para praticar seus cursos de graduação como autônomos e independentes.
O livro, em inglês, está à venda no site da Amazon.com e no site da FGV Editora, a partir de 9 de maio
Serviço
Lançamento: 09 de maio de 2016 – Mais informações: www.fullPR.net
Título: “The business of transparency: Brazil’s ‘full public relations’ approach to Recognition, Relationship, Relevance and Reputation”. 232 p.
Editor A – selo internacional da Conceito Editorial – Formato: e-book (16 cm X 23 cm)
Comercialização: Website Amazon.com (US$ 4,99) e Website FGV Editora (R$ 20,00)
Contato com o autor: (21) 99221-9258 e (21) 99490-0711
Fonte: Maxpress

A Viagem Interrompida

Com base na imprensa, pesquisa mostra como as elites golpearam o avanço comunista em Santo André.
O historiadora e jornalista Eduardo Luiz Correia desenvolveu pesquisa que começa pela repercussão na imprensa sobre a eleição e posterior proibição dos mandatos comunistas na década de 1940, para observar a articulação das elites contra a perda de espaço eleitoral para o PC do Brasil.
O PCdoB de Santo André em parceria com a Fundação Mauricio Grabois e a editora Anita Garibaldi trazem para a militância da cidade do ABC paulista o lançamento do livro “A Viagem Interrompida – A aventura comunista na Santo André da década de 1940”. O livro escrito por Eduardo Luiz Correia conta a surpreendente história da eleição do primeiro prefeito operário e comunista no Brasil: Armando Mazzo, e mais uma grande bancada de parlamentares comunistas no coração do Grande ABC. O livro também conta como foi a articulação de direita para a cassação do registro das candidaturas e o impedimento de assumirem seus cargos legislativos e executivo.
O livro já tem lançamento agendado em Santo André e São Paulo. O evento no ABC será na sexta-feira, 4 de março às 19h00, na Casa da Palavra (Praça do Carmo,171), em Santo André. Na segunda-feira, 28 de março, às 19h00, o lançamento será em São Paulo, no Centro de Estudos Barão de Itararé, à Rua Rego Freitas, 454, 8º andar – conj. 83, na República.
A farsa golpista
O livro resgata um momento histórico da política de Santo André, que muitos desconhecem; e tem similaridades históricas curiosas com a conjuntura atual, de articulação golpista da direita contra os sucessivos governos de esquerda no Brasil. Embora o contexto histórico seja distinto, o livro mostra que as elites nacionais nunca aceitaram passivamente o avanço da esquerda nos espaços de poder. “Cá entre nós, nada de muito diferente do que acontece hoje em dia”, compara o autor, em entrevista ao Portal Grabois.
Correia diz ter a expectativa de que o livro seja mais uma referência, especialmente em Santo André, para entendermos que já houve outros movimentos políticos e populares com muitas potencialidades e que foram cerceados de maneira muito dura pela elite. Toda a pesquisa de mestrado do autor começa pela tentativa de identificar na imprensa da época as repercussões sobre a eleição e cassação dos mandatos comunistas, embora aquela fosse uma imprensa muito censurada.

foto do autor: Eduardo Correia.
Embora o tom fosse bastante “oficialesco”, segundo ele, era no sensacionalismo sangrento do jornal A Noite que se entende o alinhamento mais explícito da imprensa com a classe dominante. Correia cita uma notícia sobre o alarmante e possível desembarque de armas comunistas em Santos, alardeado pelo jornal num dia, e esquecido no outro, como se nada tivesse publicado. Esse clima de guerra fria marca o modo como a perseguição aos comunistas vai se intensificando, mesmo em ambiente de redemocratização. “Mesmo com toda a demonização, os comunistas se tornaram a terceira força eleitoral na região”, diz o pesquisador, mostrando como a consciência de classe era consistente, ali.
Tradição de esquerda
Sob o comando do presidente Dutra, o Brasil na época tornou-se a ponta-de-lança da política anticomunista na região. Dessa forma, diferente de “A Vitória dos Candidatos de Prestes”, de Ademir Médici, mais focado no contexto local, “A Viagem Interrompida” busca apresentar um panorama da geopolítica da época, uma das mais agitadas e fascinantes da histórica política brasileira. “Foram eleições que, a partir do microcosmo das disputas políticas no município de Santo André, em São Paulo, permitem contextualizar os primeiros passos da Guerra Fria no Brasil e na América Latina”, afirma Correia.
Apesar da cassação dos candidatos eleitos e do próprio Partido, tradicionalmente, o ABC manteve uma cultura trabalhista e operária, com intensos reflexos políticos e eleitorais, nas décadas seguintes. Correia cita, por exemplo, um conhecido quadro do PCB, Lincoln Grillo, que assumiu a Prefeitura de Santo André, pelo MDB, em plena ditadura, em 1976. Uma das gestões mais marcantes e transformadoras da cidade foi a de Celso Daniel, do PT. Atualmente, o PT está no governo, com o prefeito Carlos Grana. Além disso, a mobilização operária no ABC contra a ditadura, no final dos 1970, foi intensa e marcou os destinos do país.
fonte: resenha de Cezar Xavier, http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=54&id_noticia=14806
 

Bandas de rock fazem crítica da imprensa

Os jornalistas acreditam que “a atualidade” deve ser divulgada imediatamente. Só que certas “atualidades” que empanturram as folhas são discutíveis. Às vezes não valem dez linhas e acabam enchendo uma página. O tema é antigo e Thomas Jefferson dele fez uma profissão de fé: “É tão difícil traçar uma linha clara de separação entre o ‘abuso’ e o uso ‘sadio’ da imprensa que eu a protegerei em seu direito de mentir e caluniar.” A ideia de que a missão dos jornalistas e da mídia seja tão alta que ninguém possa questioná-la é ilógica. É aí que entra a questão da ética profissional. A grande crise da imprensa não é nem tanto econômica ou ideológica, mas de caráter – e isso vale tanto para os dirigentes das empresas de comunicação como para os jornalistas. Portanto, o jornalismo de qualidade só pode ser atingido com responsabilidade de expressão.

Como doutrina o professor da UFMG Anís José Leão, “para ser jornalista sem ferir os princípios éticos, é preciso ter em mente que seremos julgados não apenas pela lei dos homens, mas pela lei que está escrita no coração”. E, como sentenciou Platão, “a alma refletiva e disciplinada é a alma boa” – a palavra “bom”, no entanto, não tem apenas o sentido ético que hoje se dá a ela, mas é adjetivo correspondente ao substantivo grego aretê e, portanto, quer dizer “toda a classe de virtude ou excelência”. A mencionada categoria ética em tela deve ser o grande ideal dos profissionais de comunicação midiática. Entretanto, a respeito do tema em destaque, convém destacar a existência de um triste paradoxo: as empresas jornalísticas vão muito bem, mas a profissão de jornalista vai mal. Verdade: as empresas se modernizaram, a informatização tornou o jornalismo um exercício de extrema velocidade, o faturamento subiu, mas o “produto final” – a informação – tem merecido cerrada crítica da sociedade.

No seio da queda da credibilidade jornalística, encontra-se a transformação do interesse público em mero apêndice dos anseios exclusivamente mercadológicos. Em inteligente crítica direcionada à inescrupulosa relação entre os conglomerados econômicos e midiáticos, que vêm favorecendo as ideologias hegemônicas e silenciando as vozes alternativas, o roqueiro inglês Billy Bragg ressaltou, em “It Says Here” (1985), que: “It says here that the unions will never learn/It says here that the economy is on the upturn/And it says here, we should be proud that we are free/And our free press reflects our democracy/[…]/If this does not reflect your view, you should understand/That those who own the papers also own this land” (Aqui diz que os sindicatos nunca vão aprender/Diz aqui que a economia está em recuperação/E diz aqui, devemos estar orgulhosos de que somos livres/E nossa imprensa livre reflete nossa democracia/[…] Se isso não reflete sua visão, você deve compreender que aqueles que possuem os jornais também possuem esta terra”). Riqueza e poderio figuram entre os objetivos de todas as sociedades humanas, mas não deveriam ser os objetivos prioritários de uma sociedade democrática: para ela, o essencial habita a liberdade, a igualdade, a justiça, a fraternidade –, que não serão jamais simples subprodutos da expansão econômica.

O sistema imperante e a busca de privilégios

É possível detectar outras razões para a falência da crítica balizada no noticiário corrente. Quando agem de forma severa e destemperada, jornalistas perdem a compostura informativa e opinativa e passam a imprimir juízos de valor precipitados e arrogantes. De defensores da justiça, acabam se tornando justiceiros e, assim, promovem perigosamente o sensacionalismo midiático. Neste sentido, continua sendo oportuno o alerta dado pela banda britânica The Jam, na canção “News of the World” (1977):

“Look at the pictures taken by the cameras they cannot lie/The truth is in what you see, not what you read/Little men tapping things out, points of view/Remember their views are not the gospel truth/Don’t believe it all/Find out for yourself/Check before you spread/News of the world/[…]/Read between the lines and you’ll find the truth” (“Olhe para as fotos tiradas pelas câmeras que não podem mentir/A verdade está no que você vê, não no que você lê/Homens pequenos tocando as coisas, pontos de vista/Lembre-se de que seus pontos de vista não são a verdade do evangelho/Não acredite nisso tudo/Descubra por si mesmo/Confira antes de espalhar/As notícias do mundo/[…]/Leia as entrelinhas e você vai encontrar a verdade”).

Quando a futilidade ocupa, com demasia, o espaço jornalístico, nulidades se tornam prioridades, prejudicando assim o bom andamento da mídia. Cresce a passos largos o jornalismo bisbilhoteiro. Com isso, o jornalismo investigativo vem perdendo força. O vale-tudo pela audiência contribui pesadamente para essa grave distorção de valores. Tais acontecimentos já haviam servido de mote para a fabulosa música “Sunday Papers” (1978), cantada pelo britânico Joe Jackson. Ironicamente, ao listar todas as coisas úteis que se pode aprender ao ler um jornal, o eu-lírico destaca: “If you want to know about the bishop and the actress/If you want to know about the stains on the mattress/If you want to know about the gay politician/If you want to know about the new sex position,/you can read it in the Sunday papers” (“Se você quer saber sobre o bispo e a atriz/Se você quer saber sobre as manchas no colchão/Se você quer saber sobre o político gay/Se você quer saber sobre a nova posição sexual,/você pode ler nos jornais de domingo”).

Sabemos muito bem do papel e da importância do jornalismo na sociedade moderna. Chamada de “quarto poder”, a imprensa precisa ser marcada pela responsabilidade, pela seriedade, pela serenidade, pelo equilíbrio e pelo compromisso com a verdade. Caso contrário, a mídia perde seu sentido esclarecedor e pluralista na orientação da opinião pública para compor cinicamente o mandonismo do sistema imperante e a busca constante de privilégios.

Fonte: Observatório da Imprensa, 02/02/2016, edição 888. Por Marcos Fabrício Lopes da Silva, professor universitário, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários.

“Spotlight”: a imprensa quebrou a cultura do silêncio

Somente ao se comprometer com o sofrimento de inocente, o jornalismo produziu denúncias que abalaram a autoridade da Igreja Católica. 
João José Forni*

A estreia do filme “Spotlight – Segredos Revelados” nesta semana, não é apenas a exibição de um grande filme. Com tudo que um bom roteiro e uma boa direção podem fazer. É, antes de tudo, uma aula de jornalismo. Principalmente pelo tema escolhido: a crise da Igreja Católica com o escândalo sobre pedofilia nos Estados Unidos.
É uma oportunidade de ver como o jornalismo investigativo, ancorado numa editoria corajosa e comprometida, com uma equipe profissional de alto nível, consegue enfrentar o poderoso lobby de uma instituição poderosa e secular. Mostra a força da imprensa se digladiando com a da Igreja e da sociedade local, católica e conservadora, que fingia não saber o que acontecia nos porões da diocese de Boston. O filme retrata um momento ímpar do jornalismo; mas protagoniza também um soco impiedoso e sem escrúpulos no estômago da Igreja.
Spotlight recupera o trabalho de uma equipe de jornalistas do The Boston Globe, jornal de Boston (EUA), no começo dos anos 2000, sobre denúncias, surgidas ainda de forma muito tímida, de abusos sexuais envolvendo religiosos da Igreja Católica. Boston sempre foi uma cidade de tradição católica. O foco era um padre que tinha sido investigado anos antes e continuava atuando na Igreja, apesar de 130 relatos de abusos em menores, sem que nenhuma providência tivesse sido tomada.
Segundo o jornal britânico The Guardian, “o filme mostra que, na confraria sociável da mui leal e católica cidade de Boston, ninguém tinha grande interesse em quebrar o enjoado silêncio, cheia de vergonha, que tornou possível a cultura de abusos de padres e religiosos da Igreja Católica e, mesmo que de forma sutil, o filme sugere que o Boston Globe em si foi uma das instituições de Boston também afetadas pelo pecado da omissão. O jornal tinha provas ou denúncias de abusos 10 anos antes de a investigação retratada no filme começar. Mas de alguma forma havia um pacto não declarado para minimizar e “congelar” a história, que não andou. O que levou um novo editor, de origem judaica, e um repórter, ambos de fora de Boston, a iniciar as coisas” e provocar a direção do jornal.
O Boston Globe foi a primeira publicação mundial a denunciar a cúpula da Igreja, no início de 2002, de ter acobertado dezenas de padres acusados de molestar crianças e adolescentes. Na época, quando João Paulo II era o Papa, a mídia internacional repercutiu as reportagens do Boston Globe, mas a Igreja pareceu ainda não ter entendido a gravidade das denúncias. Pareceu surda e muda ante os depoimentos que foram aparecendo. O próprio cardeal americano, o todo poderoso Bernard Law, foi exposto ao se revelar documentos que comprovavam sua omissão diante das evidências de abusos por parte de padres da diocese.
Após a divulgação do escândalo, ainda se passaram 11 meses para o Papa João Paulo II aceitar sua renúncia. Ele foi afastado da diocese, mas recebeu uma “severa promoção”, como pároco de uma das igrejas-símbolo do Catolicismo, a Basílica de Santa Maria Maggiori, uma das quatro basílicas maiores de Roma. Ele só foi “punido” publicamente, muitos anos depois, em março de 2013, quando o recém eleito Papa Francisco visitou a Basílica e, ao vê-lo, não escondeu o constrangimento, dizendo que não “gostaria que Law frequentasse a Igreja”.
O escândalo revelado no início de 2002 pelo Boston Globe não foi suficiente para a Igreja Católica agir rapidamente. A cúpula da Igreja demorou a tomar providências sobre as acusações. Só acordou quando vítimas de abusos, por todo o mundo, foram para a Justiça, o que redundou em milhares de ações judiciais contra várias dioceses. Somente em Boston, até 2014, US$ 85 milhões foram pagos em indenizações; em Los Angeles, US$ 730 milhões; em Orange, US$ 100 milhões. Uma organização de bispos americanos estima que mais de US$ 3 bilhões foram pagos em indenizações a vítimas de pedofilia nos últimos anos, após o escândalo ser denunciado pelo Boston Globe.
Os depoimentos das vítimas nos Estados Unidos – dezenas de adultos que tiveram a coragem de denunciar – possibilitou que a partir daí milhares de pessoas que passaram em igrejas, colégios, abrigos, em vários países, saíssem das sombras, contando como foram abusadas, resultando num dos maiores escândalos da história da Igreja Católica. O ápice ocorreu por volta de 2010, quando na Irlanda, Espanha, Portugal, Alemanha e até mesmo no Brasil começaram a pipocar denúncias em cadeia. Revelou-se, então, o maior erro da Igreja, ao acobertar os acusados, transferindo-os de diocese, de igrejas, de cidades, onde eles continuavam com os abusos. Não havia registro policial; não havia punição. É desses erros que Bento XVI, depois, sob muita pressão, quando o escândalo tomou dimensão bem maior, em 2010, teve que pedir desculpas.
Spotlight tem o mérito de trazer para o cinema não apenas um episódio vergonhoso, que manchou a história da Igreja Católica, mas como o trabalho da imprensa, pela obstinação de alguns jornalistas, foi capaz de implodir um sistema hierárquico corrompido, conivente e autoprotegido. A sociedade sabia, muitos pais conheciam os abusos, a mídia também tomou conhecimento. Mas essa poeira, bastante indigesta para a hipócrita sociedade de Boston, foi varrida para baixo do tapete. Poucas vozes tiveram coragem de cutucar o vespeiro da Igreja. Alguns advogados, que aparecem no filme e ajudaram o trabalho da reportagem. Até a polícia se fechou. Prevaleceu durante anos a cultura do silêncio, inclusive com o respaldo das autoridades eclesiásticas e de Roma.
O excelente trabalho do diretor Tom McCarthy mostra como a cortina foi rasgada. O Papa Bento XVI teve que abordar o espinhoso tema e lamentar, porque, após as denúncias, não foi mais possível fingir que não sabia ou minimizar a gravidade dessa crise. Os tempos são outros. Mas há 13 anos, época de ambientação do filme Spotlight, o tema era considerado tabu, intocável. Esse o grande papel dos jornalistas, que mergulharam na reportagem, e da publicação, que lhes deu respaldo e condições de apurar, mesmo enfrentando resistência da sociedade, dos advogados, das fontes, de algumas vítimas, dos acusados, das autoridades e, no início, até da direção do jornal, sem falar no boicote ostensivo da Igreja local.
É nesse momento que a obstinação, o faro do jornalista e o trabalho investigativo brilha com toda a força, conseguindo levar de roldão toda uma estrutura criada para esconder os abusos. Passados 13 anos do acontecimento e cinco de quando o escândalo tomou dimensões globais, certamente que a Igreja Católica sai chamuscada desse filme. Mas, não há dúvidas, o jornalismo sai engrandecido.
É por isso que segundo o The Guardian, “este é um filme honrosamente destinado a evitar o sensacionalismo e a evitar o mau gosto envolvido, o que implica que os jornalistas, e não os sobreviventes de abuso infantil, são as pessoas realmente importantes aqui”.
O jornal americano ganhou o prêmio Pulitzer em 2003, com a cobertura. O filme está muito bem cotado para ganhar o Oscar. A Associação de Críticos da ‘América’ votou nele como melhor filme do ano e o Sindicato dos Produtores indicou o longa de Tom McCarthy para seu prêmio, que será outorgado em 23 de janeiro.
 
* João José Forni, professor de comunicação pública e comunicação das organizações, é especialista em comunicação e gestão de crises. Editor do site Comunicação &Crise.  Artigo publicado em http://www.comunicacaoecrise.com/site/index.php/artigos/891-spotlight-a-imprensa-quebrou-a-cultura-do-silencio
 
 

“Chatô”: redenção sem amnésia

Nei Bonfim*exclusivo
É estonteante que Chatô, o rei do Brasil, venha à luz no escurinho do cinema exatamente nesta hora em que o Brasil se retorce em dores causadas, sim, pelos metais pesados de nossas várias lamas, mas também pelo fato de a Justiça e a Polícia Federal terem virado represas com colossais vazamentos diários nas redações. Estas, coerentes com o estouro dos rejeitos, os fornecem já como sentenças definitivas. Esse modus operandi curiosamente vibra na mesma frequência do filme.

Produzido, dirigido, distribuído e com atuação do próprio Guilherme Fontes ao longo de um vendaval que durou 20 anos, Chatô é uma ópera cinematográfica. Retrata, como se sabe, o magnata das comunicações biografado por Fernando Morais que redesenhou o Brasil via empreendedorismo e chantagem. É exuberante. Bem-feito. Imperdível, mesmo que essa condição de mais longa gestação da história de nosso cinema craquele a narrativa em um ou outro trecho. Mas o que interessa na discussão à luz do perfil deste Conexão Pública é como a película se costura ao momento.

Antes de mais nada: depois de tudo o que Chatô enfrentou mas também arrastou no seu caminho, com problemas na prestação de contas, gastos além da captação e acusações de megalomania e de desvios, é muito bom que tenha enfim saído o ótimo filme que saiu.

Sua qualidade, entretanto, não pode autorizá-lo a subir além do degrau da redenção. Comecemos pelo começo. Como mostrou Marcelo Bortoloti numa Época de abril deste ano, o filme teve início em 1995 com R$ 8,5 milhões captados (dos R$ 12 milhões aprovados por dois mecanismos de incentivo). E chegou a 2014 com o TCU cobrando R$ 82 milhões.

No meio do caminho, Fontes conseguiu interessar Coppola. Este destacou o roteirista Matthew Robbins, responsável pelo recorte onírico do roteiro. Mas Coppola decepcionou ao recuar dos US$ 5 milhões esperados para míseros US$ 50 mil. Parte dos 5 mil figurinos foi destruída em incêndio. A mãe do diretor perdeu o apartamento por causa da sociedade com ele. E por aí foi, com tantas guinadas que o autor Fernando Morais, generoso o tempo todo com o imbroglio, falou em 2014 que “a obstinação dele dá um livro”.

Todos esses percalços que iam erguendo a grotesca narrativa extrafilme surgiam como um assombroso espelho da própria trama. O paraibano Assis Chateaubriand foi um magnata que no seu auge (1930/1960) controlava 26 jornais, 12 TVs, 14 rádios, 4 revistas, incluindo a até hoje imbatível O Cruzeiro e a primeira televisão do país, a Tupi. Além de ter sido o pé-de-cabra no erguimento do mais importante museu de arte da América Latina, o MASP, ao lado do antológico Pietro Maria Bardi.

Talvez por causa dos atropelos, o filme omite outra gigantesca investida integradora do empresário, a criação e disseminação Brasil afora dos aeroclubes, com os arquetípicos aeroplanos Paulistinhas. Quem sabe isso apareça no documentário prometido.

Seu roteiro não-linear é obra de Robbins, depois finalizado por João Emanuel Carneiro. Põe o magnata (Marco Ricca, excelente) num leito de hospital a delirar que sua vida toda está sendo passada em julgamento num programa de auditório estilo Chacrinha (o próprio Guilherme Fontes). Para isso, sobem ao palco Getúlio Vargas (Paulo Betti, desencaixado), Vivi Sampaio (Andréa Beltrão, ótima), disputada por Chatô e pelo ditador, e Rosenberg, o braço direito e sparring (síntese de Samuel Wainer e Lacerda, adversários do chefão).

Marco Ricca interpreta Assis Chateaubriand
chato

A narrativa metafórica inclui desde uma sequência inicial de canibalismo em que Chatô reivindica devorar os portugueses da colonização até uma viagem dele, que realmente aconteceu em meio à revolução de 1930, para pactuar com Vargas no Sul. Alternam-se o apoio e a chantagem tosca ao ditador. Tudo determinado pelos interesses do empresário, incluindo a disputa por Vivi (aliás, a cena da visita da Morte, representada por Vivi, parece referência ao magistral All That Jazz, de Bob Fosse).

Isso é narrado com o apoio de uma riqueza de produção inusual: muitos figurinos de época vindos dos EUA, carros, muitas externas, variedade de ambientes (só de redações de jornais são três sets), uma procissão de minuciosos objetos de cena etc. Essa qualidade pode ser medida inclusive pelo cuidado com os diálogos (como se sabe, uma vulnerabilidade do cinema nacional e que nos EUA tem profissionais exclusivos). Por exemplo, Vivi, ao ser questionada no auditório sobre se manteve relacionamento com o chefão, responde que “de certa maneira, não”; já à pergunta de se manteve relações sexuais com ele, se sai com um “de certa maneira, sim”.  Este apuro hoje enche os olhos do espectador, mas custou, e muito. Foi um dos ralos do dinheiro.

Uma contribuição peculiar do filme é uma frase de Chatô tão rasa quanto complexa. É quando o escudeiro Rosenberg exige seu direito a expressar sua opinião no jornal do patrão. Chatô rebate com um “Quer ter opinião? Crie seu próprio jornal”. Quem já ralou em redação certamente ou já ironizou, ou já presenciou colega brincando com isso ‒numa manifestação enviesada de impotência.

É certeza que, a despeito da existência de ombudsman etc., a cúpula dos atuais grupos de comunicação ainda sente urticárias diante de uma postulação dessas. Não pelo conteúdo; todos afinal sabem que é assim que funciona um grupo de mídia. Mas com o fato mesmo de alguém expressar essa verdade. Porque todo grande grupo de comunicação quer parecer imparcial, moderno, apartidário, plural.

E aqui chegamos à questão central deste texto. Por que a qualidade do filme não pode autorizá-lo a subir além do degrau da redenção? Porque, com isso, as irresponsabilidades de sua gestão, que foram facilitadas pelas lacunas iniciais dos mecanismos de apoio (Rouanet e Lei do Audiovisual), se evaporariam num sumiço automático. Problemas de um empreendimento que, sustentado pelo dinheiro público, teve sua prestação de contas questionada e só entregou um dos produtos prometidos ‒e isso, 20 anos depois. Vamos combinar que um delete automático de erros desse calibre num momento convulsionado como este seria péssimo para o país.

Seria como celebrar generosamente o viço do pepino que nasceu torto ‒até aí, tudo bem‒, mas, não contente, amplificar de tal maneira essa comemoração que esta extravazaria do pepino ao ponto de, insanamente, dourar o entortamento em si. E, por incrível que pareça, parte dessa distorção contaria com a ajuda da opção estética do filme. Não que um filme de roteiro mais linear não pudesse também embutir esse risco; não se enxergue aqui uma defesa tardia do chamado Realismo Socialista. Afinal, o Tropicalismo, o Surrealismo e tantas outras correntes artísticas desse amplíssimo campo que escapa à linearidade são sem dúvida muito interessantes. O que não significa que sejam à prova de tudo.

Acontece que não podemos deixar de ver que a carnavalização tropicalista como a desse roteiro executa com muito mais desenvoltura que outras correntes uma liquidificação das várias dimensões da obra. A ponto de opções tipicamente suas como falas gongóricas, luzes anárquicas, fluidez de uma câmera manual e edição feérica moerem e diluírem aquele ingrediente que justamente exige espaço próprio: a reflexão ética.

No caso de Chatô, basta voltar friamente ao início do projeto para perceber o que aconteceu: tínhamos um jovem global nos anos 90 que seduzia um país viciado em novelas. Empreendedor, realizador, corajoso; até aí, tudo bem. Mas que não havia ainda dirigido um único longa. Mesmo assim, o Estado o agracia com um vultoso recurso ‒como se ainda valessem as regras docondottiere Chatô. Essa questão do incentivo fiscal para a Cultura já é delicada o bastante. Deveria apoiar mais o criador que aposta em linhas de arte ainda não-aceitasO ministro Juca Ferreira já na sua primeira gestão investiu contra esse e outros excessos mercadológicos da Lei Rouanet.

Deu no que deu, mas, enfim, habemus Chatô. Veja o filme, aguarde o documentário. Só não apaguemos as lições. Elas normalmente ficam atrás das câmeras.

* Nei Bomfim é diretor de Comunicação Corporativa. Trabalhou na Usina Belo Monte, no Xingu, e nos ministérios da Cultura e das Mulheres. Foi sócio-fundador da agência Dança da Chuva (Prêmio Aberje Brasil). Na imprensa, em SP, editou e escreveu sobre cinema, publicidade e marketing institucional.

Jornalismo Número Zero

Este espaço será ocupado por resenhas de livros, discos, filmes e outras manifestações culturais. O novo livro de Umberto Eco, “Número Zero” (Editora Record, 207 páginas) inaugura esta seção. O romance aborda uma imaginária publicação jornalística que é uma máquina de difamação, manipulação e chantagem de adversários. De forma engenhosa, o livro mistura ficção e realidade, convidando o leitor a desconfiar de tudo. Muito além do sensacionalismo, o engano é o espírito do nosso tempo.

A trama é curiosa. Uma equipe editorial sem histórico profissional recomendável é reunida sob o patrocínio do Comendador Virmecat para elaborar um novo jornal, batizado de “Amanhã”. A publicação terá sucessivas edições experimentais (números zero) destinadas puramente à chantagem.

O conteúdo da apuração obedece essencialmente à lógica de difundir informações capazes de alarmar setores econômicos e políticos. A decisão de publicar, ou não caberia, ao Comendador. Aqueles “que ele não se importa de alarmar”, explica um personagem, seriam os alvos preferenciais das matérias.

A verossimilhança das reportagens com a realidade, de teor constrangedor ou no mínimo embaraçoso junto a pessoas influentes, dará o impulso para a negociação. A contrapartida de favorecimentos, ou pagamentos em dinheiro, será simplesmente o jornal não circular.

“Número Zero” remete, em vários momentos, para eloquentes exemplos de mau jornalismo e consagração do sensacionalismo. Situações que estão presentes, por exemplo, nas narrativas de Samuel Wainer (“Minha razão de viver – memórias de um repórter”, Editora Record, 1987) e na biografia de Assis Chateaubriand, criador do império Diários Associados (Chatô, o Rei do Brasil, por Fernando Morais, Companhia das Letras, 1994).

Ao escrever para o Estado de S.Paulo (18/07/2015), o crítico Luiz Zanin Oricchio observou que o livro descreve “práticas que bem podem servir de carapuça para parte da imprensa contemporânea”. Num dos trechos, um dos protagonistas ensina como produzir matérias com acusações que, mesmo sem provas, intimidam e acabam não sendo alvo de processos daqueles que foram difamados. A cínica lição ensinada pelo chefe é: não mentir, claro, mas distorcer a realidade só contando verdades.

Outra passagem do livro mostra como “editorializar” reportagens, isto é, como contaminar uma matéria factual por meio da seleção e inclusão de declarações de fontes que expressam a mesma opinião do jornal. No manual de redação do “Amanhã”, essas falas deveriam ser mais racionais e elaboradas em comparação com as falas escolhidas dos representantes de outro ponto de vista, também presente na matéria dentro do ritual perfeito de mascarar a imparcialidade.

O pano de fundo do romance é a realidade política da Itália a partir do pós-guerra, o que requer certa familiaridade com os personagens e meandros históricos inseridos na trama.

Mas as críticas tradicionais ao jornalismo estão longe de oferecer novidade para o apetite dos leitores. O que tem sabor especial são as teorias conspiratórias que pairam hoje sobre os acontecimentos. Alimentadas pelo espírito investigativo de destacado integrante da equipe editorial as ‘conspirações’ merecem instigante abordagem de Umberto Eco.

O pano de fundo da história diz respeito aos complexos dilemas jornalismo na sua vã tentativa de domar a subjetividade. Por um lado, o conflito entre transparência e informação ocorre no terreno minado das ocultações do poder político-econômico. Por outro, reproduzir ou reconstruir fatos significa admitir que a realidade (sobretudo o mundo da política) é assombrada por alucinações, versões, fantasias, delírios.

“Você tem dois coquetéis perfeitos, e já não sabe qual é o mais autêntico”, afirma uma personagem ao abordar as circunstâncias misteriosas que engendram a transformação de “exaltadas fantasias” em “indícios de realidade”.

Mais do que a crítica ao jornalismo sensacionalista, a originalidade do livro é apontar, com ironia e sutileza, que desconfiar dos jornais não basta. “O engano é um estado de espírito, e é o espírito do Estado” (p.198). Ou, de forma mais ampla: o engano paira sobre o espírito de nosso tempo.

(resenha: Armando Medeiros de Faria – Conexão Pública)

Com foco no direito do cidadão à informação, à participação e no dever do Estado de prestar contas de suas ações, foi criada a Associação Brasileira de Comunicação Pública - ABCPública.