Crise climática: propaganda não protege

Jorge Duarte,

Presidente da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública)

 

As temporadas de chuvas vêm explicitando, há décadas, que crise climática não é pauta eventual na agenda dos governos. A cada nova estação, uma sequência de desastres vira manchete na mídia nacional e marca definitivamente a vida de centenas de cidadãos. Na contramão da realidade, a ação governamental aplica reiteradamente o seu pacote de reações a cada crise. Ficam soltas pelo caminho iniciativas de prevenção como estruturar equipes que atuam nas áreas estratégicas, colocar em funcionamento uma comunicação de fato pública, que vá além da promoção institucional e também empreenda ações de escuta e diálogo com o cidadão.  

A ação governamental parece ter saltado da fase de contestação da crise climática para a reação aos estragos, muitas vezes de forma improvisada. Ficou pelo caminho o principal: preparar pessoas, investir em comunicação, criar rotinas e organizar serviços para um risco contínuo, que pesa mais sobre quem tem menos proteção. Ainda falta entender que crise climática não é “pauta” de momento; é o ambiente em que o poder público passa a operar todos os dias.

A ideia de “desastre natural” sugere um tipo de acidente ou ação dos deuses. Isso é uma leitura, no mínimo, confortável,  porque muitos dos desastres climáticos passam a resultar do encontro entre ameaça previsível e vulnerabilidade social, expondo déficits de gestão e desigualdade. Comunicação é parte da proteção: tem  instrumentos para ajudar as administrações a transformar risco em preparo e ação, não apenas em informação, muitas vezes precária e tardia. 

A engrenagem pública costuma ser ativa, criativa e diligente quando o objetivo é divulgar, sobretudo em ano eleitoral, mas lenta e hesitante quando a tarefa é proteger pessoas e organizar respostas. Reportagem da Folha de S.Paulo (16/11/2025) apontou que, em 2025, a comunicação institucional passou a responder por 57% da verba federal de publicidade, superando as campanhas de utilidade pública. Prestar contas é dever de governo. O problema começa quando a comunicação voltada à cidadania perde espaço para a autopromoção com aparência institucional. Na hora do desastre, enquanto governos disputam narrativa, bairros seguem buscando socorro, orientação e resposta.

Quando o poder público quer fazer comunicação funcionar em benefício próprio, ele consegue. Isso aparece na profusão de peças de ‘prestação de contas’ sem utilidade ou interesse público.  Prestação de contas é dever, mas o problema começa quando vira peça promocional e um tempo valiosíssimo de conexão com a sociedade (sem falar nos recursos públicos) é desperdiçado para autopromoção. E não é falta de capacidade, mas de foco: quando é para se proteger, o Estado encontra soluções de linguagem e de comunicação. Reportagens recentes (ver G1) mostraram a proliferação de rótulos genéricos para descrever adicionais e verbas, com 37 denominações usadas para esse fim, muitas deliberadamente vagas, o que dificulta a transparência sobre a natureza desses pagamentos. Esse mesmo esforço de criatividade e capacidade, aplicado ao que importa ao cidadão, ajudaria a evitar situações em que o alerta chega, mas faltam preparo, instrução clara e procedimentos conhecidos.

O caso de Juiz de Fora ajuda a dimensionar a gravidade do problema. Em 2025, a cidade esteve entre as que mais receberam alertas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Reportagens publicadas em fevereiro de 2026 mostraram a distância entre o aviso emitido e sua conversão em proteção efetiva. Há plano de contingência e sistema de alerta e alarme; o documento municipal registra o uso de SMS, TV por assinatura, Google Alertas, WhatsApp, Telegram, além da participação da Secom e dos núcleos comunitários. Ainda assim, o alcance segue limitado: o plano informa 45.061 cadastrados no SMS da Defesa Civil, cerca de 9,31% da população local. O problema, portanto, não parece estar apenas na existência formal de protocolos, mas na baixa capilaridade da comunicação, na dificuldade de transformar intenções em resultados e na distância entre a estrutura institucional e a vida concreta do cidadão. 

O último congresso da ABCPública teve como tema central a emergência climática e o direito à informação. Isso mostra que as mudanças climáticas já entraram no centro das preocupações de quem trabalha com comunicação pública e acompanha, no cotidiano, efeitos que muitos governos ainda tratam como exceção ou anormalidade passageira. Desastre, como crise, enfrenta-se antes, com preparo, confiança, previsibilidade e comunicação tratada como prioridade e política pública, com responsabilidade e foco no cidadão. O problema é que essa preocupação ainda esbarra numa barreira cultural e política antiga: a comunicação segue sendo usada, com frequência, como instrumento para construir imagem e visibilidade de autoridades, e não para explicar, orientar pessoas e garantir acesso a serviços. A conta chega todos os dias, no balcão de atendimento, no telefone sem resposta, no site confuso e, nas crises, na forma de ansiedade, perda de tempo, desinformação, decisões erradas e, no limite, mortes evitáveis.

Falar com o cidadão dá trabalho porque exige diagnóstico, escuta, estratégia, planejamento, operações e orientação adaptada. Fazer propaganda de divulgação do governo é fácil. Falta mudar o foco: o protagonismo é do cidadão, não da autoridade nem da instituição. A comunicação existe para fazer o Estado funcionar melhor para o cidadão, e não para servir de arauto da autoridade. Não é tocar trombetas nem bater bumbo de “realizações” (convenhamos, nunca deveria ter sido).

Comunicação é infraestrutura de proteção e de funcionamento. Precisa operar como serviço: ouvir, entender, orientar, esclarecer e facilitar decisões rápidas e seguras. Não é um conjunto de mídias nem atendimento à imprensa. É um sistema que, entre outras atribuições, precisa entender contexto e cidadão para ajustar rotinas e dar respostas.

A comunicação precisa deixar de ser improviso ou apêndice e passar a ser estratégica e parte da rotina de gestão de governo, sobretudo em cidades e regiões com histórico de eventos extremos e risco de desastres. Isso exige linguagem simples, acessibilidade, trabalho com escolas, associações, lideranças locais e canais presenciais. Exige também um padrão mínimo de gestão do risco: preparo, plano de comunicação consistente, mensagens adaptadas por perfil e território, procedimentos claros, simulações periódicas, canais que realmente funcionem durante a crise e indicadores de alcance e compreensão.

A crise climática já entrou para a agenda social e política. Em desastre, digital não dá conta sozinho. O cidadão não precisa de um governo que se promova com boa comunicação. Precisa de um Estado que use a comunicação para preparar, reduzir danos, proteger patrimônio e preservar vidas. Comunicação não é algo que se acrescenta depois. Não é contingente nem fim-de-linha. É constitutiva do serviço, da política e da ação pública.

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