*Paulo Beraldo
Você sabe o que é comunicação assertiva? Já parou pra pensar sobre esse tema? De forma resumida, é a comunicação que atinge o objetivo.
Pense na sua rotina de trabalho. Quantas vezes você já esteve numa reunião ou palestra em que alguém falou muito e disse pouco? Empilhou estatísticas, apresentou muitas ideias principais, explicou vários conceitos diferentes, usou palavras difíceis e deu voltas antes de chegar ao objetivo.
No fim, alguém pergunta baixinho: “Entendeu alguma coisa?” e você balança a cabeça, pois não entendeu. E dificilmente lembrará do que foi dito depois. Isso acontece todos os dias, em diferentes contextos. Quantas vezes a sua comunicação atinge o objetivo? Você acha que falou A, mas a pessoa entendeu B.
E o pior: você nem tinha muito tempo para prestar atenção, mesmo que quisesse. Segundo o livro Attention Span, da pesquisadora Gloria Mark, o tempo médio de foco de uma pessoa em uma única tela caiu de 2,5 minutos em 2004 para 47 segundos em 2021. Em duas décadas, nossa capacidade de atenção encolheu para menos de um terço do que era.
Chris Anderson, o renomado criador do TED Talk, já ensinava: limite sua apresentação a apenas uma ideia. Não duas, não três… uma. Ele diz que a maior parte das apresentações fracassa não por falta de conteúdo, mas por excesso. As pessoas tentam colocar um livro inteiro em quinze minutos, e no fim não sobra nada na cabeça de quem ouve. Uma ideia bem explicada vale mais que dez ideias espalhadas.
Aprendendo com ele, gosto de dizer que para falar bem é preciso pensar antes. Pensar muito. É preciso ter intencionalidade. Isso significa, antes de abrir a boca ou escrever a primeira linha, se perguntar: qual é a única coisa que eu preciso que essa pessoa lembre depois que eu terminar de falar? Tudo o que não serve a essa resposta é ruído, por mais interessante, correto ou bem construído que seja. Cortar é, talvez, a parte mais difícil da comunicação. Exige disciplina abrir mão de uma boa ideia secundária para que a ideia principal tenha espaço.
Tem gente que confunde comunicação com quantidade de palavras. E, na minha experiência, quanto mais a gente fala, maiores são as chances da mensagem principal se perder no meio do caminho. Uma orientação que nos ajuda: temos que falar para o outro, não para nós mesmos. Assertividade é, portanto, pensar e decidir, com intencionalidade, qual o objetivo de nossa comunicação. Pensar e decidir exatamente qual mensagem queremos que seja lembrada.
Na comunicação pública, essa assertividade ganha um peso ainda maior. Um órgão público não fala só para informar. Fala para prestar contas, para construir confiança, para garantir que o cidadão entenda seus direitos e deveres. Quando uma nota técnica vem cheia de jargão, quando um comunicado institucional enrola para dizer o óbvio, quem perde não é só a imagem do órgão, é também o cidadão, que fica sem entender uma política pública que afeta diretamente sua vida. A linguagem rebuscada, às vezes vista como sinal de autoridade, na prática afasta e exclui.
Comunicar bem no setor público ainda é uma forma de accountability. Dizer com clareza o que foi feito, o que não foi, e por quê, é um exercício de comunicação aplicado à relação entre Estado e sociedade: observar o fato sem maquiagem, nomear o que está em jogo, explicar a necessidade por trás de uma decisão e propor um caminho claro. Instituições que se comunicam com assertividade ganham algo raro hoje: credibilidade. E credibilidade, no fim, é o maior patrimônio de qualquer comunicação pública.
A comunicação não violenta
Além disso, a comunicação assertiva nos permite dizer ‘não’ sem soar agressivo, impor limites no trabalho e fazer nossas ideias serem ouvidas. Nos faz ser notados. Mas como fazer isso? Uma ferramenta muito útil para uma comunicação assertiva é a comunicação não violenta, criada pelo psicólogo Marshall Rosenberg. Não é sobre ser gentil demais, nem “engolir sapos” o tempo todo. É mais sobre dizer a verdade com precisão, sem acusação, rodeio e nem ataque.
Esse método tem quatro passos. Parece simples de entender, muita gente acha que sabe ou conhece. Mas é difícil de praticar. Primeiro, precisamos observar o fato, sem julgamento. Não é dizer “Fulano, você sempre entrega atrasado”, e sim “este relatório chegou um dia depois do combinado”.
Segundo, nomear o sentimento faz muita diferença. Dizer “fico preocupado” é mais honesto que uma reunião inteira de indiretas. Terceiro, dizer a necessidade por trás do sentimento. Exemplo: “Preciso confiar nos prazos para planejar o resto do trabalho”. Quarto, fazer um pedido claro. Não uma insinuação. Não uma cobrança disfarçada de pergunta. Um pedido direto: “Pode me avisar com antecedência quando um prazo não vai fechar?”
É o que, em inglês, chamamos de “call to action”. Qual o chamado para ação por trás de sua comunicação? No trabalho, isso vale ouro. Em relacionamentos, também.
Comunicação é uma habilidade treinável
É importante dizer, também, que comunicação assertiva se aprende. Não nasce pronta. É prática, é queda, é levantar de novo. É dizer “eu discordo” sem pedir desculpa por existir. É dizer “não posso” sem inventar vários motivos. É ouvir uma crítica sem se sentir pequeno. Trabalhando com países da América Latina, Caribe e Europa, percebi, por comparação, que o ambiente de trabalho brasileiro teme o confronto. Prefere o mal-entendido ao desconforto de esclarecer. Prefere o silêncio à pergunta direta. Isso custa tempo, custa dinheiro, custa gente boa que desiste e vai embora.
Equipes que se comunicam bem erram menos. Decidem mais rápido. Confiam umas nas outras. O gestor que ouve sem se ofender ganha uma equipe leal. O funcionário que fala sem agredir ganha respeito. O time que discute ideias sem discutir egos entrega mais.
Simples assim. Difícil assim, reconheço. Não existe fórmula mágica. Existe treino. Existe vontade de fazer diferente. Existe a escolha, todo dia, de dizer a palavra certa, na hora certa, do jeito certo.
A reunião pode ser diferente da próxima vez. Alguém pode levantar a mão. Pode dizer o que pensa, sem medo e sem violência. Pode mudar o rumo das coisas. Basta abrir a boca. Basta dizer a verdade, com respeito e assertividade. E basta que o escutem, com respeito. O resto é consequência.
**Paulo Beraldo é jornalista formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), tem pós-graduação em relações internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e mestrado em ciências da comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), com ênfase em relações internacionais, segurança alimentar e comunicação pública. É integrante do Observatório de Comunicação, Responsabilidade Social e Sustentabilidade (SustenCOM) e coordenador dos comitês temáticos da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública). Também concluiu o Programa Avançado em Comunicação Pública da ABERJE e da ABCPública. Trabalhou como repórter no Estadão por quatro anos e atua como consultor de comunicação da Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU) desde 2021.

