ComPública dá espaço a outros campos e vozes em mesa-redonda sobre memória e luta por direito

Atividade reuniu representantes da Rede Kalunga e da Avabrum, associação de familiares das vítimas e atingidos pelo rompimento da Barragem Córrego do Feijão, em Brumadinho

Por Angélica Lúcio*

A memória coletiva fortalece narrativas sociais e amplifica lutas. Mas como a comunicação pública pode se inserir nesse contexto e promover a cidadania? Uma das formas é abrir espaço para os mais diversos segmentos e garantir que suas vozes sejam ouvidas. Foi o que ocorreu, na prática e de forma significativa, durante a quarta edição do Congresso Brasileiro de Comunicação Pública (ComPública 2026), realizado de 16 a 18 de setembro em Brasília.

O terceiro dia de programação, na Câmara dos Deputados, começou com a mesa-redonda “Comunicação pública, memória e luta por direitos”. A atividade reuniu relatos de Kenya Lamounier e Edi Tavares, da Avabrum (Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão), e Daniella Teles, da Rede Kalunga Comunicações. A mediação ficou a cargo de Lília Gomes, vice-presidente de Comunicação da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública).

Logo no início, ao destacar que o congresso abria espaço para vozes de diferentes campos do conhecimento, Lília Gomes convidou o público a ouvir “O bêbado e a equilibrista”, canção de João Bosco e Aldir Blanc imortalizada por Elis Regina. Ao evocar o choro de Marias e Clarices, a música também preparou o público para os relatos de vozes, dores e lutas que seriam compartilhados em seguida, lembrando que cada uma dessas histórias carrega um propósito. Afinal, como diz a canção, “uma dor assim pungente / Não há de ser inutilmente”.

A mediadora destacou que a mesa-redonda era um convite a todo o público para debater ancestralidade, memória, povos que nos antecederam e direitos violados. “Por isso fiz esse convite para a gente ouvir Elis Regina, para que a gente se lembre de que resgatar memória é promover transformação e não voltar ao passado. É não repetir o passado”.

Desde 2025, a ABCPública passou a receber no palco do ComPública representantes de movimentos sociais; agentes que estão do outro lado do balcão da comunicação pública. No evento que abriu a programação do dia 18, Daniella Teles, Kenya Lamounier e Edi Tavares relataram suas experiências nos espaços de comunicação que vêm construindo e fortalecendo. Também destacaram como trabalham para democratizar o acesso do cidadão à informação e aos direitos, atuando, muitas vezes, em contextos nos quais o poder público não consegue cumprir plenamente seu papel de informar e comunicar.

História e luta da Rede Kalunga Comunicações

Desde 2021, a Rede Kalunga de Comunicação (RKC) vem transformando a comunicação em ferramenta de resistência, luta e permanência na defesa do território quilombola no Nordeste de Goiás. Mídia independente fundada por jovens locais do território que lhe deu nome, a RKC atua com foco em articulação comunitária, cultural e educativa. Parte dessa trajetória foi apresentada durante o ComPública 2026 por Daniella Teles, diretora-geral e cofundadora da instituição.

Daniella lembra que, ao concluir a graduação, começou a questionar a própria identidade como mulher negra de pele clara, compreendendo melhor o contexto em que estava inserida. “Houve uma época, na minha infância, em que as pessoas não se identificavam como quilombolas kalungas justamente porque as informações sobre o território eram muito estigmatizadas”, conta. 

“Por muito tempo, o Nordeste goiano foi identificado como corredor da miséria, inclusive pela mídia, e as pessoas tinham receio de se identificar assim”, diz. “A Rede Kalunga nasceu dessa necessidade. A gente queria contar as nossas próprias histórias, mas também a história da comunidade”. Outro objetivo era fortalecer a identidade local e ampliar a presença das comunidades quilombolas nos espaços de comunicação. Hoje, a instituição atua na produção de jornalismo, audiovisual, fotografia, projetos culturais, educação e memória. 

A proposta é conectar tradição e inovação para registrar, preservar e valorizar os saberes, as pessoas e os territórios quilombolas. O poder de mobilização é expressivo: somente as oficinas de Comunicação Comunitária já formaram mais de 500 pessoas.  Em 2024, a Rede Kalunga Comunicações passou a realizar projetos com órgãos públicos, como o governo do Estado e universidades. Já em 2025, a instituição tornou-se uma associação privada e conta, atualmente, com o apoio do Instituto Unibanco. 

A Kalunga dá voz aos quilombolas? Daniella Teles diz que não. “A gente costuma dizer que não dá voz a ninguém. Essas pessoas já têm voz. O que fazemos é devolver espaço para que possam contar as próprias histórias. Hoje, nos consolidamos como um veículo de comunicação independente”. 

Esse também é o entendimento da diretora sobre comunicação pública. Para ela, o comunicador não precisa ser a voz do cidadão, mas o profissional responsável por criar condições para que diferentes vozes sejam ouvidas. Em sua apresentação, ela destacou que o comunicador público viabiliza a circulação da informação para que ela se torne um ativo capaz de gerar impacto no território. 

“Esse trabalho pode aproximar pessoas e instituições, traduzir informações, identificar demandas, organizar narrativas e criar caminhos para que aquilo que acontece na ponta também chegue aos espaços de decisão”. Segundo Daniella, na experiência da Rede Kalunga, “comunicar também significa mediar relações e ampliar possibilidades de participação”.

Tragédia da Vale: quando a dor se transforma em compromisso

Kênia Paiva Lamounier é viúva de Adriano Aguiar Lamounier. Já Edi Aparecida Tavares perdeu o marido, Nelson Pinto. Tanto Adriano quanto Nelson estão entre as 272 vítimas da tragédia provocada pelo rompimento de uma barragem da mineradora Vale, em Brumadinho (MG), em 2019. 

Na mesa-redonda promovida pela ABCPública, Kênia e Edi foram responsáveis por relatos tocantes, que sensibilizaram a plateia. Mais: demonstraram que é preciso lembrar e agir, para que situações como a de Brumadinho não voltem a ocorrer. No dia 25 de janeiro de 2019, Nelson Pinto saiu de casa para trabalhar e nunca mais retornou. Com o tempo, Edi Tavares transformou a dor em compromisso, atuando na defesa do encontro, da memória, da justiça, dos direitos dos familiares e da não repetição. Ela e Kênia integram a diretoria da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. 

“Falar em Avabrum não é apenas um assunto relacionado a um acontecimento do passado. Nós estamos falando da nossa vida, da nossa história, da história das nossas famílias e especialmente da história de 272 pessoas que tiveram suas vidas interrompidas”, afirmou. 

“Estamos falando também de uma luta que continua, que persiste. E nós, da Avabrum, estamos aqui neste lugar para falar sobre memória. Estamos aqui para dizer que memória é direito. Estamos aqui para dizer que verdade é direito. Estamos aqui para dizer que justiça é direito e estamos aqui também para falar diretamente com aqueles que trabalham com comunicação de interesse público, que são vocês, porque nós sabemos a força que a comunicação tem para preservar uma história, revelar fatos, questionar versões e, principalmente, impedir que uma tragédia e um crime sejam apagados pelo tempo”, desabafou. 

Para a representante da Avabrum, isso vale tanto para jornalistas e comunicadores quanto para instituições públicas. Como ela mesma disse, comunicar também é prestar contas, é explicar, ouvir e dar ao cidadão condições de compreender o que o Estado está fazendo ou por que uma resposta ainda não pode ser dada. 

“Nós não falamos apenas de uma tragédia, nós falamos de pessoas. Quando aconteceu o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, o Brasil conheceu a tragédia-crime que tirou a vida de 272 pessoas. Nós, familiares, não perdemos uma estatística. Não perdemos um número. Nós perdemos pessoas”, declarou. Edi Tavares destacou que não permitir que esses números façam desaparecer os nomes talvez seja uma das maiores responsabilidades dos comunicadores. “Porque, por trás de cada número, existe uma pessoa e, por trás de cada pessoa, existe uma história”, disse. 

E ressaltou: “O dia 25 de janeiro de 2019 não ficou no passado. Para quem olha de fora, pode parecer que Brumadinho aconteceu naquela data. Para nós, não. Brumadinho continua acontecendo. Continua nas consequências humanas, sociais e institucionais que permanecem. Continua acontecendo quando precisamos lutar para que direitos sejam respeitados. Continua acontecendo quando precisamos buscar incansavelmente aquilo que deveria ser consequência natural de uma sociedade justa: a aplicação da justiça e a responsabilização de quem deve responder por seus atos”. 

Relatos de Brumadinho vão reverberar na mente dos participantes do ComPública

Relato semelhante ao de Edi Tavares, na dor e na luta por justiça, foi feito por Kênia Lamounier. No evento, ela leu um documento repleto de simbolismo poético, mas duro, direto, preciso. E que deve reverberar ainda por muito tempo na mente de todas as pessoas que a ouviram durante o ComPública. 

Com sua leitura, Kênia voltou ao dia da tragédia e também aos momentos que se seguiram. Nos dias posteriores ao desastre, os familiares ficaram sem canais oficiais de comunicação, notícias precisas ou acolhimento neutro, dependendo apenas de relatos de TV e redes sociais. A Vale assumiu o controle do território, retendo informações e gerenciando a tragédia com foco na preservação de sua própria reputação e na tentativa de enquadrar o evento como desastre natural. 

“Em 25 de janeiro de 2019, às 12h28, rompeu-se a barragem da Vale em Brumadinho. Em menos de 1 minuto matou 272 pessoas. Meu marido Adriano Lamounier era um trabalhador. Era um trabalhador da Vale e foi enterrado vivo no mar de lama. A lama desceu varrendo tudo, rompeu nossas vidas, rompeu o silêncio”, disse. 

As primeiras notícias chegaram pelo WhatsApp e continuaram chegando pelo celular: vídeos, áudios, imagens estarrecedoras. “Ninguém sabia nada, mas todos contavam tudo. Cada hora uma notícia, cada notícia um horror. A empresa matou 272 pessoas, cercou o território e ali começou o seu domínio, administrando a tragédia, tentando difundir na mídia uma imagem de vítima e a ideia de que aquilo era um desastre natural. Assim, tentava se eximir do erro e da sua responsabilidade”, declarou. 

A leitura de Kênia Lamounier seguiu por mais alguns minutos. Ela fez um desabafo sobre a atuação da mineradora Vale. “Naquele momento, para a empresa era imperativo cuidar da imagem e ela fez isso como ninguém. Negou, ocultou informações, bloqueou o acesso às imediações, controlou o espaço, buscou sempre se mostrar diligente, estava à frente de tudo para manter inabalável sua reputação. Controlar. Foi com isso que a empresa se preocupou. Com o poder absoluto nas mãos, ela dominou e controlou tudo o tempo todo. Assim, reteve em suas mãos provas e informações, elementos que poderiam ser comprometedores. Mostrava e ocultava o que lhe convinha”. 

Sem acesso a nenhuma informação, os familiares das vítimas se viam abandonados. “Viramos espectadores da nossa própria tragédia. A única notícia que chegava era pelos canais de TV. A cena era esta: uma empresa com poderio gigante, o Estado e as instituições tentando entender e se ater ao que tinha ocorrido. A empresa sempre voltada para mitigar os danos à sua imagem”, afirmou Kênia Lamounier. Ela também relatou que, diante desse cenário, os familiares ficaram em um vácuo e foram ignorados. 

“Não éramos vistos como sujeitos de direitos, direito ao acolhimento, ao respeito, à dignidade, à informação, direito de ter um espaço neutro, longe da influência da empresa. Ficamos totalmente rendidos à empresa. Depois de tudo, ainda ficamos à mercê daquela que deixou a barragem romper”, desabafou. 

Perante esse cenário, a dor dos familiares deu lugar à vontade de buscar respostas de forma conjunta e organizada. Nascia assim a Avabrum. A criação da associação e a existência formal dos familiares como coletivo — é necessário registrar — só se tornaram possíveis quando eles encontraram escuta, acolhimento e validação, rompendo com o isolamento inicial. 

Com o tempo, conforme afirmou Kênia Lamounier, a associação consolidou-se como uma frente de resistência contra o apagamento da história de Brumadinho. A comunicação estratégica é tratada pela Avabrum como o meio central para transformar a dor individual em voz política, exigindo justiça para as vítimas e garantindo a não repetição da tragédia. 

“Queremos justiça pelas 272 mortes. Temos muito a dizer. Precisamos que a comunicação seja nossa aliada. A comunicação rompe o silêncio porque transforma ausência em presença, memória em voz. Onde o silêncio apaga, a comunicação revela. Onde o silêncio tenta encerrar uma história, a comunicação a mantém viva. Cada passo nessa caminhada por justiça, memória e não repetição é importante, mas só conseguiremos avançar se pudermos mostrar para o Brasil nossa cara e nossa fala”, finalizou Kênia Lamounier, ativista e viúva de Adriano Aguiar Lamounier — uma das 272 “joias” de Brumadinho por quem os familiares buscam justiça. 

*Angélica Lúcio é comunicadora pública no Instituto Federal da Paraíba (IFPB), em João Pessoa, e representante da ABCPública na Regional Paraíba. 

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