Comunicação Pública no Brasil: o desafio da conexão com o cidadão

 Jorge Duarte, presidente, e Armando Medeiros, vice-presidente de Coordenação Regional, dois dos fundadores da ABCPública

A Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública) surgiu há dez anos, em um salão de festas de um prédio residencial na Asa Norte, em Brasília. De certo modo, foi o desdobramento de um processo de discussão sobre a necessidade de fortalecer a comunicação na área pública para ajudar o cidadão a acessar o suporte do Estado. Havia a percepção de que esse campo, embora já reunisse produção acadêmica, experiências institucionais e profissionais espalhados pelo país, ainda carecia de articulação e um espaço permanente de cooperação para avançar.

Os antecedentes estavam nos debates entre profissionais e acadêmicos sobre a necessidade de superar a noção tradicional de comunicação governamental, incorporando ao debate brasileiro as ideias europeias de comunicação pública. Esse movimento estimulara a publicação de artigos e livros, além da realização de pesquisas. Houve ainda a implantação de uma agenda de comunicação pública na Secom da Presidência da República, que resultou na criação de uma diretoria de Comunicação Pública e, depois, do site Conexão Pública, voltado à comunicação de interesse público. Foi desse percurso que amadureceu a ideia de criar uma associação nacional capaz de reunir profissionais de diferentes áreas e estados em torno de uma agenda comum. A formalização ocorreu em 2016, quando cerca de dez profissionais de vários estados e do Distrito Federal assinaram a ata de fundação da ABCPública.

Orientação pelo cidadão e pelo interesse público

Desde o início, a associação recusou o papel de entidade corporativa. Ela nasceu vinculada a uma concepção de comunicação pública centrada no cidadão e no interesse coletivo. Esse ponto ajuda a entender sua identidade: a ABCPública se organiza em torno da qualificação da comunicação voltada ao exercício da cidadania. Seu papel foi sendo construído como espaço de reflexão, ‘tematização’, produção de referências, circulação de conhecimento e fortalecimento profissional de quem atua na interface entre Estado e sociedade.

Na origem dessa mobilização está um desafio persistente: a forte atração do poder público brasileiro, em todas as instâncias e níveis, pela propaganda autorreferencial. Essa lógica foi solidamente moldada ao longo de 36 anos – somados os períodos da Era Vargas e do regime militar – quando se estruturou um modelo de comunicação a serviço do poder, e não do cidadão. Nesses ciclos, a comunicação estatal foi organizada como instrumento de legitimação política, marcada por centralização, controle da informação e uso sistemático da propaganda para exaltar governos, supostos feitos e lideranças.

Essa herança deixou marcas profundas na cultura administrativa brasileira. Ela ajuda a explicar por que, ainda hoje, muitos associam comunicação na área pública à construção de imagem e à ocupação, por vezes aleatória, do espaço público, em vez de entendê-la como dever de informar, esclarecer, orientar, ouvir e prestar contas.

A visão de comunicação como mera divulgação não é apenas tosca, mas também improdutiva.  Comunicação é constitutiva da ação do Estado. Isso significa que ela é orgânica, natural e integra a própria capacidade de o poder público agir bem. Por isso, sua gestão deve ser estratégica e orientada para o cumprimento da missão institucional, com a consciência de que comunicar é responsabilidade de todos os integrantes da instituição pública e deve servir exclusivamente ao interesse público. Afinal, uma política pública só funciona plenamente quando o cidadão conhece e entende seu objetivo, sabe como acessar serviços, consegue seguir orientações, reconhece seus direitos e encontra canais para tirar dúvidas, oferecer retorno e participar. Quando integrada à ação estatal, a comunicação ajuda o Estado a formular melhor, implementar com mais qualidade, reduzir erros, ampliar a adesão, corrigir rumos e aumentar a efetividade das políticas públicas.

Distanciamento entre Estado e sociedade

O distanciamento Estado-sociedade é uma consequência da tradição narcisística. Em estudo que realizamos em 2023 com gestores de assembleias legislativas, a dificuldade de conexão com a sociedade surge entre os principais desafios, associada ao desconhecimento sobre o papel do Legislativo, à desconfiança em relação à política e à baixa capacidade de engajamento da população. O mesmo apareceu em pesquisa feita em 2025 com gestores de comunicação de prefeituras de capitais. Mais uma vez, um problema central era a dificuldade de estabelecer conexão efetiva com os cidadãos, em um ambiente de atenção dispersa, perda de credibilidade e baixa capacidade de mobilização. O diagnóstico indica um desencaixe persistente entre o que o Estado faz ou diz e o que a sociedade percebe, entende e valoriza.

Mas pode ser pior, talvez consequência disso. Pesquisa do Pew Research Center, de 2024, mostrou que 54% dos brasileiros estão insatisfeitos com o funcionamento da democracia. Quase metade diz não confiar no governo para fazer o que é certo para o país. E 81% afirmam que, em geral, não se pode confiar nas outras pessoas. É um quadro que mistura ceticismo com as instituições, desgaste do debate público e enfraquecimento dos vínculos de confiança. Algo semelhante aparece na pesquisa Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo (2016-2017), da Fundação Perseu Abramo. O estudo sugere que a leitura clássica da política como confronto entre patrões e empregados foi substituída por outro tipo de embate: entre Estado e sociedade.

Isso ajuda a reposicionar o problema. Não se trata apenas de falta de informação, mas também de falta de conexão e confiança, indicando uma potencial crise de legitimidade. O problema é mais do que distribuir informação, é fazer com que ela chegue com sentido, utilidade e credibilidade. O cidadão não parece rejeitar o Estado ou a vida pública em si. O que aparece, com mais frequência, é a frustração diante de instituições distantes, inacessíveis, que falam para si mesmas, escutam pouco e têm dificuldade de se mostrar úteis na vida concreta das pessoas.

A dificuldade de o Estado chegar ao cidadão esbarra também em limites mais profundos de compreensão pública. O Brasil convive há muito tempo com déficits de educação formal e leitura da própria realidade. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional de 2024, 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais. Já no estudo Perigos da Percepção 2017, da Ipsos, realizado em 38 países, o Brasil apareceu entre os países que mais erram ao estimar fatos básicos da vida social, ocupando o 2º lugar no índice de percepção equivocada.

Uma rede que amadureceu

É nesse cenário que a ABCPública faz sentido. Ela nasce da percepção de que não basta atualizar ferramentas, melhorar técnicas, ampliar canais ou divulgar mais. É preciso enfrentar um problema mais fundo: a dificuldade de foco para construir uma comunicação pública capaz de aproximar Estado e sociedade, produzir entendimento e fortalecer a cidadania.

Ao longo de sua evolução, a ABCPública ampliou seu raio de ação em pelo menos três frentes. A primeira foi a formação de rede, conectando comunicadores, pesquisadores, estudantes e gestores públicos. A segunda foi a produção e a curadoria de conhecimento, algo visível na biblioteca aberta mantida pela associação, que reúne centenas de artigos científicos, livros, teses, relatórios e publicações próprias sobre o tema. A terceira foi a ocupação do debate público por meio de congressos, guias, cartas de conjuntura, recomendações e posicionamentos sobre temas estruturais da área.

Em outras palavras, a ABCPública deixou de ser apenas um ponto de articulação para se tornar também uma instância de formulação, difusão e legitimação do campo da comunicação pública no Brasil. Busca tematizar a comunicação pública para ampliar a compreensão de seu papel e de seu potencial como fator de desenvolvimento social.

Ao longo desses dez anos a ABCPública passou a atuar para qualificar práticas, apoiar gestores na prestação de contas à sociedade, defender princípios de transparência, estimular parcerias e oferecer referências aplicadas ao cotidiano das instituições. O sentido da entidade está aí: contribuir para que a comunicação na área pública deixe de ser tratada como apêndice operacional e passe a ser compreendida como dimensão constitutiva estratégica da relação entre Estado, políticas públicas e cidadania, capaz não apenas de distribuir informação, mas fazer as instituições funcionarem melhor e ajudarem o brasileiro a exercer a cidadania.

Hoje, a atuação da ABCPública aparece de forma concreta em temas como linguagem simples, acesso à informação, políticas de comunicação, comunicação em crises, relacionamento digital com o cidadão e valorização do comunicador público. A associação também tem investido fortemente em capacitação, como a criação recente da Escola ABCPública. Em paralelo, mantém atuação pública por meio de recomendações, cartas de conjuntura, congressos e diálogo com órgãos de Estado e redes de gestores. O quadro é o de uma entidade que amadureceu: continua sendo espaço de encontro e defesa de princípios, mas passou também a atuar como formuladora, articuladora nacional e provedora de formação aplicada para um campo que ainda busca mais reconhecimento e institucionalidade no Brasil. E permanece aberta a parcerias, à incorporação de novos participantes, ideias e alianças, reforçando seu papel na consolidação da comunicação pública como campo profissional, institucional e democrático no país.

 

 

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