Muito além do diploma: por que a comunicação pública exige atualização constante

Por: Jorge Duarte*

Ao longo de muitos anos de atuação como professor e profissional de comunicação no setor público, cheguei a uma convicção simples: atualização profissional é necessidade permanente. Há pelo menos duas razões para isso. A primeira é que a formação universitária, essencial, é fragmentada e parcial, insuficiente para responder às exigências do trabalho em comunicação institucional. A segunda é que a realidade se transforma o tempo todo, torna-se mais complexa e amplia os desafios. Isso exige preparo permanente. Vamos examinar essas duas questões.

O ensino da comunicação foi historicamente organizado por disciplinas e especialidades. Isso ajudou a aprofundar conhecimentos em áreas específicas, mas não garantiu, na mesma medida, uma compreensão articulada do conjunto. No jornalismo, por exemplo, a experiência nas redações costuma funcionar como complemento e ajuste à realidade. Em relações públicas, o conteúdo ensinado raramente dá conta, por si só, dos desafios de gerenciar relações com os diferentes públicos de uma organização.

Essa insuficiência aparece de forma ainda mais clara quando se entra no campo da comunicação organizacional e, mais ainda, da comunicação pública. Atuar para informar, esclarecer, orientar, dialogar e fortalecer o debate público exige capacidades de diagnóstico, análise, formulação estratégica e operação muito além daquilo para o qual, em geral, somos preparados na graduação.
Comunicação organizacional exige visão sistêmica. Implica lidar com temas técnicos e sensíveis, em ambientes atravessados por conflito, pressão, subjetividade e disputa. No setor público, isso se amplia. É preciso compreender políticas públicas, sua tradução para a vida cotidiana e sua conexão com a sociedade. É preciso agir em estruturas marcadas por burocracia, interesses em disputa, limitações operacionais, equipes reduzidas, restrições orçamentárias e cobrança permanente de todos os lados.

Nesse contexto, faz pouco sentido pensar a atuação apenas a partir da habilidade específica, do diploma de origem, da ferramenta preferida ou da corporação profissional. O que se impõe é outra lógica: uma comunicação capaz de funcionar para o cidadão e de dar efetividade à missão institucional. No fim das contas, o desafio é fazer com que a organização pública ganhe sentido prático na vida de quem depende dela.

A realidade corre mais rápido

O segundo motivo é que a realidade muda em ritmo acelerado. Na prática, fazer comunicação já foi mais simples, embora não tenhamos percebido isso com clareza. Hoje surgem, o tempo todo, novas exigências, ferramentas, linguagens e transformações no perfil dos públicos, nas formas de consumo de informação e modos de relação com as instituições.

O ecossistema informacional foi profundamente alterado nos últimos anos. Já não se trata apenas de produzir e distribuir informação para grupos, segmentos ou para a sociedade em condições relativamente estáveis. Há desinformação em larga escala, ambientes digitais fragmentados e hostis, crise de confiança nas instituições e atores que distorcem, atacam ou dificultam a ação pública. O desafio, portanto, não é apenas informar. É compreender públicos desconfiados, disputar atenção em meio ao excesso de estímulos, ser entendido e ainda conseguir reconhecimento como fonte confiável. Em muitos casos, a dificuldade já não está apenas em alcançar, mas em gerar escuta, produzir compreensão e manter a credibilidade. Isso exige monitoramento, leitura de contexto e diagnóstico rápido, formulação de estratégias para dar capacidade de resposta, adaptação permanente e preparo técnico muito superiores aos que, em geral, recebemos na formação original.

Menos rotina, mais pressão

Durante muito tempo, a comunicação pôde se apoiar em rotinas mais previsíveis. Havia menos canais, menos interlocutores, menos conflitos e menos interferência ativa e contínua de múltiplos atores. A ação de comunicação também permanecia mais concentrada em profissionais e estruturas especializadas. Hoje o cenário é outro. Precisamos atuar em ambiente instável, diante de uma sociedade mais exigente em informação e interação e, não raro, também diante de gestores que ainda tratam a comunicação apenas como instrumento de visibilidade.

Três conceitos ajudam a compreender o núcleo da nossa atuação profissional: integração, estratégia e comunicação estratégica. Integração significa enxergar a comunicação como um processo único e articulado, e não apenas como a soma de áreas, ferramentas ou especialidades. A comunicação tem que ter estratégia, o que exige saber onde estamos, aonde queremos chegar e quais caminhos fazem mais sentido diante de determinado contexto. Comunicação estratégica, por sua vez, é aquela que, a partir da missão da organização, articula suas ações para produzir efeitos relevantes.

Assim, a formação original é indispensável, mas é apenas o ponto de partida. Atuar em comunicação pública é altamente gratificante porque nos coloca diante do interesse público, do foco no cidadão e da possibilidade de contribuir, pela comunicação, para que políticas, serviços e direitos impactem e façam mais sentido na vida das pessoas. Ao mesmo tempo, é uma atividade que exige investimento permanente em aperfeiçoamento, justamente porque está submetida a desafios múltiplos, mutáveis e, muitas vezes, simultâneos.

O caminho ficou mais longo, mais irregular e com mais riscos. E, se fazer comunicação é mesmo um trabalho de Sísifo, com a diferença de que pode ser muito mais instigante e gratificante, então o preparo deixa de ser apenas desejável. Passa a ser indispensável.

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*Graduado em Jornalismo e Relações Públicas. Mestre e Doutor com pós-doutoramento (UnB) em Comunicação. Trabalhou em redações e emissoras de rádio e foi dono de agência de comunicação. Atua com comunicação na área pública desde 1990. É Analista de Comunicação na Embrapa, onde foi coordenador de Jornalismo, coordenador de Comunicação em Ciência e Tecnologia, gerente de Comunicação Estratégica e assessor da Presidência. Na Secretaria de Comunicação da Presidência da República – Secom – (2004 a 2012) foi Assessor Especial e Diretor de Comunicação Pública. Coordenou media trainings, cursos e eventos de comunicação, no Brasil e exterior e deu apoio e consultoria para organizações públicas. É professor de pós-graduação e autor de pesquisas, livros, manuais e textos sobre relacionamento com a imprensa, estratégia, media training e comunicação organizacional, pública e científica. É autor ou organizador de livros como “Assessoria de Imprensa e Relacionamento com a Mídia”, “Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação”, “Glossário de Comunicação Pública”, “Pesquisa & Imprensa: orientações para um bom relacionamento” e “No Palácio, com a Imprensa”. É presidente da ABCPública. Eleito cinco vezes Top Executivo de Comunicação Região Centro-Oeste. Prêmio ‘James Heffernan’ – Educador do Ano, oferecido pela Aberje. Prêmio Jabuti Acadêmico 2024. Prêmio ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias) 2024.

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