Atividade on-line integrou a conclusão da sétima edição do Curso Completo em Comunicação Pública, promovido pela ABCPública
Como fortalecer a confiança da sociedade nas instituições em um cenário de desinformação, disputa de narrativas e crescente desconfiança nas fontes de informação? Essa foi a questão central do seminário on-line “Desinformação no âmbito da comunicação pública”, realizado como parte da conclusão da sétima edição do Curso Completo em Comunicação Pública, promovido pela Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública).
Organizado pelos estudantes Adriano Frausino, Isabela Barros, Jocélio de Oliveira, Magali Moser e Sabryna Moreno, o encontro reuniu duas convidadas com experiências complementares:
– Fiorenza Zandonade Carnielli, professora e coordenadora executiva do Observatório da Comunicação Pública (OBCOMP), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS);
– Ana Cristina Santos, chefe da Assessoria Especial de Comunicação Social do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
O debate abordou os desafios de comunicar informações de interesse coletivo em um ambiente marcado pela velocidade de circulação dos conteúdos, pela atuação das plataformas digitais e pela disseminação de informações falsas ou enganosas. A discussão também destacou a importância da transparência e do diálogo na construção de relações de confiança entre instituições públicas e cidadãos.
Comunicação pública e confiança
A partir de sua trajetória acadêmica e de sua atuação no campo da comunicação pública, Fiorenza Zandonade Carnielli contribuiu para a reflexão sobre a legitimidade das instituições e os desafios enfrentados pela comunicação pública nas rotinas institucionais.
Doutora e mestra em Comunicação e Informação pela UFRGS, a pesquisadora integra o Núcleo de Pesquisa em Comunicação Pública e Política (Nucop) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).
Em sua apresentação, a professora Fiorenza organizou a discussão em torno de quatro dimensões: ser fonte de informação, ser confiável, estar comprometida com o interesse público e conquistar legitimidade.
Para a pesquisadora, a comunicação pública precisa superar uma perspectiva meramente burocrática e tornar a informação estatal acessível, compreensível e visível nos espaços de debate público. A confiança se constrói a partir da experiência concreta dos cidadãos com os serviços prestados pelas instituições e da coerência entre as promessas institucionais e as entregas efetivas à sociedade.
Fiorenza também chamou a atenção para os riscos de personalização e partidarização da comunicação de Estado, que podem subordinar o interesse coletivo a agendas individuais ou político-eleitorais. Como resposta, defendeu a profissionalização e a institucionalização da comunicação pública, com equipes qualificadas, autonomia técnica, orçamento adequado e continuidade das políticas de comunicação entre diferentes gestões.
Em um cenário de disputa pela visibilidade e de erosão da confiança nas instituições, ela situou a comunicação pública como um elemento fundamental para a qualificação da democracia.
Ao concluir a apresentação, sintetizou o desafio em uma palavra: “resistir”. Ela destacou a baixa experiência democrática brasileira e os desafios à comunicação pública nesse sentido: “A democracia é uma exceção histórica na história da humanidade”, lamentou.
Práticas e dinâmicas da comunicação pública
Na perspectiva institucional, Ana Cristina Santos apresentou a experiência da comunicação governamental em uma área estratégica para o debate público: ciência e tecnologia. Jornalista, mestra e doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), ela atua na articulação entre comunicação governamental, política e redes sociais.
A palestrante abordou diferentes manifestações da desinformação, desde informações deliberadamente falsas até conteúdos imprecisos ou verdadeiros, mas retirados de contexto. Segundo Ana Cristina, essas informações podem explorar emoções como medo e raiva para dificultar a verificação dos fatos. “A desinformação usa principalmente as emoções das pessoas para impedir que elas chequem aquela informação”, explicou., explicou.
Ao compartilhar a experiência do MCTI, Ana Cristina destacou a importância de manter relações contínuas com as fontes de informação, adaptar a linguagem às diferentes ferramentas e estabelecer canais de diálogo com as plataformas digitais e a imprensa. Ela também ressaltou a necessidade de articulação com as equipes jurídicas para dar agilidade às respostas institucionais diante de conteúdos enganosos.
“É importante garantir um relacionamento permanente com as nossas fontes. Não pode ser uma coisa pontual”, afirmou. Para a jornalista, a manutenção desses vínculos e a preparação das equipes contribuem para que as instituições consigam responder com rapidez às situações de desinformação.
As convidadas também destacaram a importância dos concursos públicos para a profissionalização da comunicação pública e discutiram os efeitos das restrições do período de defeso eleitoral sobre o direito à informação e a atuação das instituições.
O seminário reforçou que a comunicação pública exige planejamento, responsabilidade e compreensão das dinâmicas de circulação de informações. A atuação institucional precisa considerar tanto a qualidade do conteúdo divulgado quanto as condições para que ele alcance diferentes públicos e seja efetivamente compreendido.
O presidente da ABCPública, professor Jorge Duarte, também participou do debate. Ele propôs às convidadas possibilidades de parcerias para fortalecer as ações de comunicação pública no meio acadêmico e no ministério.

