Como define a sua participação no Compública 2026?
Houve dois momentos da minha participação no Congresso: o recebimento do Prêmio Beth Brandão de Comunicação Pública, concedido pela ABCPública, e a miniconferência que teve como título Comunicação Pública no Brasil: ampliando o conceito e reforçando os compromissos.
Fiquei honrado com o recebimento do Prêmio que leva o nome de uma das mais importantes comunicadoras e estudiosas dessa temática em nosso País, que não apenas sistematizou o conceito de comunicação pública, mas definiu, com contundência e competência, seus princípios, diretrizes e a avaliação crítica de suas práticas.
Como poderia resumir a contribuição de Beth Brandão para a comunicação pública no Brasil?
Beth Brandão deu contribuição inestimável para o aprimoramento da comunicação pública, defendendo a tese de que o diálogo permanente e democrático entre o Estado, os governos, as instituições, as empresas públicas e privadas e a sociedade consolida a cidadania e fortalece as instâncias que dele participam. Ela, sobretudo, esteve empenhada em distinguir a comunicação pública de outras modalidades de comunicação, como a comunicação política e a comunicação governamental. Além disso, Beth Brandão deixou claro que a comunicação pública nada tem a ver com a busca por promoção pessoal, pelo cerceamento da liberdade da expressão, reforçando a tese de que ela, prioritariamente, tem como foco a construção do espaço público, a democratização da informação e do conhecimento. Beth Brandão associou, de forma competente, a comunicação pública, com a promoção do debate democrático e o estímulo à participação dos cidadãos no processo de elaboração de políticas públicas para atender aos interesses e expectativas dos cidadãos. Alertou para o fato de que a comunicação pública não se efetiva apenas na esfera governamental, admitindo e reforçando a ideia de que há iniciativas privadas, ou sob a égide de organizações não governamentais, que assumem também como objetivo o atendimento ao interesse público.
Um dos focos da sua miniconferência foi a revisão do conceito de comunicação pública. Por que essa necessidade?
Eu trabalhei a partir de dois focos principais: a necessidade de atualizar e ampliar o conceito de comunicação pública e de revisar as suas práticas.
Temos que admitir que ainda permanece, mesmo na literatura pertinente, a tendência de limitar a comunicação pública à esfera pública, entendida equivocadamente como o conjunto de instituições ou agentes públicos.
Graças à contribuição de Beth Brandão e outros autores (Jorge Duarte, Maria Helena Weber, Heloiza Matos, dentre muitos outros) deve ficar bem claro que a comunicação pública assume uma perspectiva mais ampla do que a comunicação do governo, do Estado, das instituições e empresas públicas.
A meu ver, se assumirmos como essência do conceito o vínculo indissociável da comunicação com o interesse público, não poderemos ignorar inúmeras ações e campanhas da iniciativa privada como exemplos de atividades da comunicação pública em seu sentido mais amplo e autêntico.
A proposta que defendemos é não contemplar a comunicação pública a partir unicamente do perfil dos agentes que a promovem, mas incorporar uma nova perspectiva que pode responder a uma pergunta básica: o processo de comunicação tem como objetivo atender ao interesse público, às demandas e expectativas dos cidadãos?
Você abordou, de forma crítica, as práticas atuais da comunicação pública. A comunicação pública, a seu ver, tem um caráter elitista?
Destacamos que a comunicação pública precisa rever suas práticas que favorecem apenas o acesso às informações e a participação, muitas vezes egoísta, das elites. Ela deve lançar mão, de forma ampla e competente, da chamada comunicação popular e comunitária, como nos tem ensinado, exemplarmente, a professora Cicília Peruzzo.
O elitismo da comunicação pública se manifesta por priorizar comunicados institucionais e entrevistas que circulam, prioritariamente, nos veículos das instituições e das empresas públicas, e também nos veículos tradicionais, quase sempre programas da TV por assinatura e jornais ou revistas de prestígio, respectivamente assistidos e lidos por pessoas com nível de informação e letramento diferenciados.
A comunicação pública precisa estabelecer circuitos de informação competentes para inclusão dos segmentos menos favorecidos da população e garantir que eles possam se manifestar e participar ativamente da cena brasileira.
Como você avalia a comunicação pública nas mídias sociais?
Quando se endereça às redes sociais, quase sempre a comunicação pública assume um tom pessoal, contaminado pelo desejo de promoção, ou por incitamento ao debate polarizado, nem sempre respaldado em informações verdadeiras. Em muitos casos ela recorre a influenciadores não éticos com o objetivo de arregimentar apenas uma legião de seguidores, priorizando a lógica autoritária do convencimento e não, a proposta democrática de participação.
Ela acaba alimentando esse embate não democrático, que dissemina o ódio e divide a nação, aproximando-nos, perigosamente, de rupturas no Estado de direito e afrontando a essência do regime democrático.
Você argumentou que a comunicação pública apresenta outros vieses importantes. Quais são eles?
A comunicação pública atual se caracteriza também por um discurso ou narrativa que não leva em conta o perfil da audiência e contempla um cidadão padrão médio que, na verdade, não existe nesse país que se caracteriza pela diversidade e formidável desigualdade social e linguística.
É preciso que a comunicação pública esteja fundada no diálogo, na convivência, no respeito ao contraditório, no pluralismo de ideias e opiniões, na promoção da diversidade e da inclusão. Ela precisa ser acessível, antirracista, não misógina e comprometida com os valores inegociáveis que caracterizam uma democracia, repudiando a desinformação e o negacionismo.
Você se referiu a dois e-books que estão sendo lançados este mês, um deles no Congresso, e que se vinculam a grupos de pesquisa que lidera na USP.
Sim, o primeiro deles lançado no Congresso constitui uma parceria entre o grupo de pesquisa JORCOM, da ECA/USP, e a ABCPública. Ele se intitula O Jornalismo na Comunicação Organizacional: desafios à frente e reúne a contribuição valiosa de mais de duas dezenas de estudiosos e profissionais que abordam temas relevantes da Comunicação Organizacional e da Comunicação Pública. Ele estará disponível, para download, na Biblioteca Digital da ABCPública, assim como uma dezena de outros e-books publicados pelo JORCOM.
O outro, que estará sendo lançado, ainda este mês, pelo grupo de Pesquisa em Jornalismo Especializado da ECA//USP (JORNESP), intitula-se Jornalismo Especializado: desafios presentes e futuros. A exemplo do outro e-book, dele participam pesquisadores, docentes e profissionais de comunicação. Ele também estará presente na Biblioteca Digital da ABCPública, permanecendo disponível para o download dos interessados.
A USP também acaba de publicar artigo de sua autoria sobre Comunicação Pública. Como ter acesso a ele?
Sim, o Jornal da USP, de ontem, publicou um artigo meu sobre Os desafios da comunicação pública no Brasil, que trouxe reflexões adicionais sobre a situação atual do estudo e da prática da comunicação pública em nosso país. Se houver interesse de estudiosos e profissionais da área, o link para acesso ao artigo é https://jornal.usp.br/artigos/os-desafios-da-comunicacao-publica-no-brasil/ É importante estimular o debate sobre esta temática e me sentirei recompensando se a miniconferência e o artigo, absolutamente atuais, contribuírem para isso.

