Por Agnaldo Montesso,
doutorando na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP
Há uma cena que se repete nas câmaras municipais do Brasil: o vereador sai da tribuna e vai direto ao celular para postar o discurso que acabou de fazer. Antes mesmo de terminar a sessão, o vídeo já está no ar, com trilha sonora, legenda e chamada para seguir o perfil, isso quando não é transmitido ao vivo para os seguidores, dando destaque à atuação do legislador.
Esse fenômeno diz muito sobre o tempo em que vivemos e não apenas sobre os políticos envolvidos. Ele é, também, o espelho de uma mudança nas formas como a sociedade se informa, se relaciona com o jornalismo e constrói sua percepção sobre o poder público local.
Os dados do Digital News Report 2026, publicado pelo Reuters Institute, apontam que, pela primeira vez na história do levantamento, as mídias sociais ultrapassaram a televisão e os sites noticiosos como principal fonte de informação no mundo. O estudo destaca que 54% dos respondentes globais afirmam buscar notícias por essas plataformas semanalmente, contra 52% que ainda assistem à televisão e 51% que acessam sites e aplicativos de veículos jornalísticos.
No Brasil, o cenário é ainda mais acentuado: mais da metade da população utiliza essas plataformas digitais para se informar toda semana, com o Instagram em destaque entre os jovens e o TikTok em crescimento acelerado.
A confiança no jornalismo caiu para seu nível mais baixo desde 2015, chegando a apenas 37% dos respondentes globalmente. No Brasil, os dados acompanham a tendência, com queda expressiva registrada no mesmo período.
Não é por acaso, portanto, que os vereadores estejam também se apropriando desses espaços. Eles estão indo onde o público está. O que precisa ser examinado com mais cuidado é o que fazem quando chegam lá e o que essa presença significa para o controle democrático do poder executivo municipal.
A plataforma como nova tribuna
O primeiro argumento a favor da presença de legisladores municipais nas redes sociais é legítimo: elas podem ampliar o alcance do trabalho de fiscalização. Um vereador que usa seu TikTok ou Instagram para questionar uma licitação suspeita, comparar preços de contratos públicos ou cobrar explicações sobre obras inacabadas está exercendo, de forma potencialmente mais eficaz, o mandato que recebeu.
A sessão ordinária da câmara municipal, transmitida pela TV Câmara local, assistida por poucos, tem alcance incomparavelmente menor do que um vídeo de 60 segundos que pode acumular dezenas de milhares de visualizações e chegar ao próprio prefeito como pressão pública concreta.
O relatório do Reuters Institute aponta que 27% dos respondentes globais obtêm notícias de criadores de conteúdo focados em informação, e que, quando se incluem criadores que abordam temas de atualidade ocasionalmente, esse número sobe para 46%. Em mercados como o Brasil, onde o número de influenciadores cresce de forma exponencial, o legislador que adota a linguagem das plataformas está sendo estratégico. A questão é a estratégia a serviço de quê.
Não é um fenômeno trivial quando se considera o que era, até pouco tempo atrás, o principal instrumento de atuação do vereador no cotidiano municipal: a indicação e o requerimento. Documentos formais, protocolados, publicados no diário oficial, respondidos em prazo legal. Instrumentos burocráticos por excelência, invisíveis para a maior parte da população e com alcance restrito ao circuito interno entre legislativo e executivo. Era por ali que passava a maior parte da atividade parlamentar de base: a solicitação de tapa-buraco, a cobrança por iluminação pública, a requisição de informações sobre contratos.
Hoje, esse fluxo foi alterado de forma significativa. Antes mesmo que o requerimento seja redigido, protocolado e despachado, quando a demanda ainda é apenas uma percepção de problema, uma reclamação de morador, uma foto tirada no celular, o vereador já está nas mídias, transformando aquela situação em conteúdo.
O vídeo antecede o documento; a pressão pública precede o rito institucional. Em muitos casos, o executivo municipal responde à postagem antes de responder ao requerimento formal.
Essa inversão não é necessariamente negativa: ela pode acelerar soluções e dar visibilidade a demandas que a burocracia engavetaria. Mas também embaralha os registros, fragiliza os mecanismos formais de controle e transforma o processo legislativo em narrativa de mídias sociais, com todas as distorções que isso implica.
A lacuna deixada pelo jornalismo local
Para entender por que os legisladores TikTokers encontraram tanto espaço, é preciso examinar o que aconteceu com o jornalismo local no Brasil. Inúmeros municípios brasileiros, especialmente os de pequeno e médio porte, operam hoje como “desertos de notícias”, sem qualquer veículo capaz de cobrir sistematicamente o executivo e o legislativo municipais. Soma-se a isso o fim da exigência do diploma para o profissional de jornalismo, em que, muitas vezes, o compromisso ético na cobertura das ações deixa de lado a isenção.
Nessa ausência ou fragilidade, o vereador que posta vídeos sobre a câmara municipal pode ser, paradoxalmente, a única fonte regular de informação política local disponível para boa parte da população.
O Digital News Report 2026 documenta esse processo com precisão: o interesse em notícias caiu em média 13 pontos percentuais desde 2021 nos 46 mercados pesquisados; 25% dos respondentes são hoje usuários casuais ou passivos, que consomem notícias raramente e têm pouco ou nenhum interesse nelas.
Mas há uma inversão curiosa: embora o interesse no jornalismo tradicional caia, o interesse em conteúdo produzido por criadores e influenciadores cresce. O público tende a considerar esses criadores mais divertidos, fáceis de entender e identificáveis do que os veículos de notícias tradicionais, ainda que menos confiáveis e menos imparciais.
É exatamente nessa brecha que os legisladores digitais se inserem. Eles oferecem proximidade, linguagem direta e ausência de mediação jornalística.
A armadilha da visibilidade
A mesma plataforma que pode servir à fiscalização serve igualmente, e talvez prioritariamente, à construção de imagem pública positiva frente à sociedade e aos futuros eleitores. E as duas coisas frequentemente se confundem, de propósito ou não.
O algoritmo do TikTok, do Instagram e do YouTube não recompensa a prestação de contas: recompensa o engajamento. E engajamento, no ambiente digital, é gerado por emoção, por identificação, por conflito. Um vídeo de um vereador em lágrimas em visita a uma escola gera muito mais alcance do que um relatório de fiscalização sobre irregularidades no contrato de reforma da mesma escola.
A denúncia espetacularizada de uma falha do prefeito gera mais compartilhamentos do que a apresentação fria e documentada dos mesmos dados. O resultado é que a gramática das redes incentiva ativamente o espetáculo da fiscalização em detrimento da fiscalização propriamente dita.
Segundo Patrick Charaudeau, o discurso político articula diferentes finalidades comunicativas. De um lado, mobiliza uma lógica de informação, pela qual o locutor procura construir um discurso crível sobre o mundo e produzir um efeito de verdade. De outro, opera sob um contrato de captação, recorrendo a estratégias de sedução, emoção e identificação para conquistar a adesão do público. As lógicas de funcionamento das plataformas digitais tendem a favorecer esse segundo registro, como pondera o professor Eugênio Bucci, no livro “A Superindústria do Imaginário”.
Quando um legislador migra para esse ambiente sem a mediação do jornalismo e sem a obrigação e as normas que a tribuna parlamentar ao menos formalmente impõe, o risco é que sua comunicação seja voltada inteiramente para o registro da captação e que isso seja apresentado à sociedade como transparência e controle.
Há ainda outro efeito, menos visível mas igualmente relevante: o legislador que constrói uma narrativa digital sobre sua atuação fiscalizatória passa a competir, no mesmo espaço e com as mesmas ferramentas, com a narrativa que o próprio executivo municipal produz sobre si.
Prefeituras utilizam suas assessorias de comunicação para responder às cobranças nas mídias com a mesma velocidade e a mesma lógica algorítmica. O resultado é um ambiente de conflito de narrativas no qual o interesse público frequentemente perde para a versão mais bem produzida, que pretende vencer a guerra por atenção.
Existe também uma dimensão pouco abordada no debate público sobre o tema, mas que merece atenção: a natureza jurídica e ética dos perfis utilizados por esses atores políticos. As contas no TikTok, Instagram ou YouTube destes políticos são cadastradas como perfis pessoais, em nome do parlamentar, não do mandato.
Essa distinção, aparentemente técnica, tem consequências. Um perfil pessoal não está sujeito aos mesmos controles de transparência que os canais institucionais das câmaras municipais. Seu conteúdo não precisa ser arquivado nem submetido aos mesmos mecanismos de prestação de contas. No entanto, é esse perfil “pessoal” que recebe a assessoria de comunicação contratada com verba de gabinete, o profissional de criação de conteúdo pago com recurso do mandato, o serviço de impulsionamento de publicações financiado pelo erário.
O que se apresenta ao cidadão como iniciativa individual do parlamentar, sua voz, seu estilo, sua presença digital, é, com frequência, um produto coletivamente financiado pelo contribuinte, mas inteiramente orientado pela lógica da construção de uma imagem política pessoal.
Trata-se de uma zona opaca: o mandato financia o conteúdo, mas o conteúdo serve ao agente público. E quando chega o período eleitoral, esse capital simbólico acumulado ao longo de anos com dinheiro público converte-se, sem qualquer constrangimento formal, em vantagem de campanha. Enquanto isso, as contas dos órgãos públicos vêm sofrendo com um silenciamento da comunicação pública em detrimento da comunicação política.
Prestação de contas ou espetáculo?
A expressão “prestar contas” remete à obrigação do agente público de demonstrar, com dados verificáveis, como utilizou os recursos que lhe foram confiados. Nesse sentido, um vídeo denunciando a ausência de asfalto num bairro pode ser marketing político, mas não é, em si, fiscalização.
Para sê-lo, precisaria vir acompanhado de referência ao contrato, ao valor previsto, à empresa responsável, ao prazo vencido, elementos que raramente aparecem nos vídeos, e que o algoritmo desfavorece ativamente por não gerarem curtidas.
O perigo, portanto, é a substituição do accountability substantivo por uma aparência de fiscalização. O vereador que posta todos os dias sobre falhas do executivo pode ser percebido como mais atuante do que aquele que não posta, independentemente de qual dos dois efetivamente apresenta requerimentos de informação, acompanha processos licitatórios, propõe comissões de fiscalização. As plataformas criam uma ilusão de controle democrático que pode, paradoxalmente, dispensar o controle real.
Há também o problema da mediação ausente. O jornalismo profissional, ainda que imperfeito e com confiança em queda, cumpre funções que o conteúdo autoproduzido pelo legislador não pode cumprir: verificação de informações, busca do contraditório junto ao executivo, contextualização histórica, perspectiva crítica independente. Quando o vereador é o único produtor de conteúdo sobre o legislativo municipal, cenário cada vez mais comum nos municípios brasileiros, a audiência recebe uma narrativa curada pelo próprio sujeito que deveria fiscalizar o poder. Isso não é controle democrático: é, no melhor dos casos, uma versão parcial dele.
O que a democracia local precisa
Nada disso implica que legisladores devam abandonar as plataformas. Seria ingênuo ignorar ferramentas com alcance real junto à população que os elegeu, especialmente num contexto em que o jornalismo local encolheu e a atenção pública migrou definitivamente para o digital. O que se pode — e deve — exigir é uma distinção mais consciente entre comunicação legítima e simulacro de fiscalização.
Uma presença nas redes sociais que leve a sério o mandato democrático combinaria a linguagem acessível das plataformas com o conteúdo substantivo que o exercício do cargo exige. Vídeos sobre falhas na gestão deveriam incluir links para portais de transparência e documentos públicos.
Cobranças ao executivo deveriam trazer os dados que as sustentam. A atividade parlamentar, envolvida com requerimentos, votações, pareceres, deveria ser tornada pública e compreensível, mesmo que esses conteúdos jamais viralizem.
O cenário descrito pelo Reuters Institute é de uma sociedade que busca informação em fontes menos confiáveis porque as fontes mais confiáveis se tornaram menos acessíveis, menos relevantes ou simplesmente desapareceram.
Nesse contexto, o legislador digital ocupa um espaço que o jornalismo local deixou vago. Mas ocupar um espaço não é o mesmo que cumprir uma função. A fiscalização do poder executivo, o controle sobre o uso de recursos públicos e a garantia de que as políticas municipais beneficiem quem delas precisa são obrigações constitucionais e não podem ser substituídas por um feed bem gerenciado, por mais seguidores que ele tenha.
A democracia local não precisa de vereadores influencers. Precisa de vereadores que usem as ferramentas dos influencers para fazer o que o legislativo tem autoridade constitucional para fazer: controlar o poder, documentar as irregularidades e garantir que o dinheiro público chegue onde deve chegar.

