Workshop sobre Comunicação em situações de emergência abre 2º Seminário Mineiro de Comunicação Pública

O workshop “Comunicar em meio ao caos: estratégias de comunicação pública em situações de emergência” reuniu uma discussão sobre como órgãos públicos, empresas e equipes de resposta devem comunicar desastres e crises sem ampliar o sofrimento das vítimas. A iniciativa abriu o 2º Seminário Mineiro de Comunicação Pública na quarta-feira (22/04), das 19h30 às 21h30, e foi mediada pelo diretor regional da ABCPública em Minas Gerais, Agnaldo Montesso.

O encontro foi conduzido por Armando Medeiros de Faria, vice-presidente de Coordenação Regional da ABCPública, diretor da Conexão Pública e coordenador técnico do Projeto Legado de Brumadinho, da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG).

A partir da experiência, o encontro defendeu protocolos centrados nas vítimas, integração entre áreas e linguagem humana, com forte ênfase em prevenção, mapeamento de risco e cuidado no pós-desastre.

Dentre os principais temas debatidos foi a centralidade das vítimas na comunicação de crise. Armando sustentou que a comunicação pública em emergências não deve priorizar reputação institucional, mas sim a dignidade de pessoas atingidas, familiares e desabrigados. Ele argumentou que, em tragédias como Brumadinho, Mariana, Santa Maria e enchentes recentes, a comunicação pode acolher, ignorar, silenciar ou até revitimizar — e que o dever principal é evitar qualquer forma de dano adicional.

A fala foi baseada na vivência com familiares e vítimas do rompimento da barragem da Vale em 25 de janeiro de 2019. Armando explicou que o trabalho com o “Legado de Brumadinho” gerou aprendizados que embasaram o guia de comunicação pública apresentado no evento, construído com escuta de familiares e atingidos, e não apenas com visão institucional.

Foi reforçado que a comunicação de emergência não acaba nos primeiros dias após o desastre. Segundo Armando, os efeitos se prolongam por anos, inclusive em luto, memória coletiva, judicialização, acolhimento e reconstrução da vida das famílias, por isso a comunicação precisa continuar após a cobertura inicial e não se limitar ao momento do evento.

Armando destacou um conjunto de premissas práticas para protocolos de crise: centralidade das vítimas e atingidos; escuta qualificada, sem julgamento; transparência ativa; rapidez com prudência; integração entre comunicação, saúde, assistência social, resgate, Defesa Civil e IML; linguagem simples e humanizada; apoio psicossocial também para equipes de linha de frente; e previsibilidade operacional com centros unificados de informação para famílias.

Armando insistiu que a gestão de crise começa muito antes da crise: com mapeamento de risco, revisão periódica de protocolos e simulações. Ele recomendou pensar os riscos por impacto e probabilidade, antecipando cenários graves e incorporando sempre o pior caso como referência de planejamento.

Outro ponto importante foi a disputa de linguagem: Armando disse que o modo como um evento é nomeado importa, porque há diferença entre fatalidade, acidente, tragédia e crime. Ele também destacou que a comunicação deve assumir responsabilidade pública, com estados, empresas e instituições reconhecendo falhas quando necessário, em vez de apenas proteger imagem.

A discussão foi enriquecida por perguntas e comentários de participantes de diferentes órgãos. Gisele Couto, da Defesa Civil estadual, trouxe a reflexão sobre como a população reage de forma diferente a conteúdos de preparação e prevenção antes da emergência, apontando a necessidade de mudança cultural e educação para risco.

O workshop concluiu que comunicar em meio ao caos exige mais do que técnica: exige responsabilidade pública, empatia, preparo institucional e compromisso com a vida humana. A principal mensagem foi que protocolos de emergência precisam nascer do risco real, ser testados antes da tragédia e sempre preservar a dignidade de quem já está em situação de vulnerabilidade.

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