Comunicadores na área pública têm papel decisivo para a integridade da informação

Por Rachel Mello*

Em debate no 4º ComPública, especialistas destacam que enfrentar a desinformação exige informação confiável, linguagem acessível e compromisso permanente com o interesse público

Brasília, 24 de setembro – Criar condições para que a informação de interesse público seja encontrada, compreendida e reconhecida como confiável pelos cidadãos é uma responsabilidade cada vez maior dos profissionais da comunicação pública. Em um ambiente marcado pela polarização, pela desconfiança nas instituições e pela circulação acelerada de conteúdos falsos ou manipulados, produzir informações corretas já não basta. É preciso pensar também em como elas chegam às pessoas e em que condições serão recebidas.

Os novos desafios da comunicação pública e possíveis caminhos para o enfrentamento à polarização foram destaques da mesa “Integridade da informação em tempos de polarização”, realizada no dia 17 de setembro, durante o 4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública (ComPública), em Brasília. O debate reuniu o chefe da área de Liberdade de Expressão e Segurança de Jornalistas da UNESCO, Guilherme Canela, a professora e pesquisadora da Universidade de Brasília, Liziane Guazina e a jornalista e gerente de Comunicação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Tatiana Farah.

Para os debatedores, a integridade da informação se constrói no trabalho cotidiano. Ela depende da qualidade dos dados e da transparência das fontes, mas também das escolhas de linguagem, formato e canal. Exige das instituições a capacidade de escutar os cidadãos, reconhecer suas dúvidas e traduzir assuntos complexos sem distorcê-los. Demanda ainda transparência ativa, esforços para reduzir assimetrias informacionais e a construção de relações duradouras de confiança. 

“É fundamental que a informação, a comunicação e o conhecimento sejam compreendidos como bens públicos”, afirmou Canela. Para ele, a proteção da integridade da informação requer a participação de governos, empresas, academia, sociedade civil, imprensa e cidadãos, com respeito aos direitos humanos e à liberdade de expressão.

Os integrantes da mesa ressaltaram ainda a importância de reconhecer que a disputa entre a informação íntegra e a desinformação não ocorre em condições iguais. As informações verificadas competem com conteúdos planejados para provocar medo, raiva e indignação, sentimentos que aumentam o engajamento e favorecem a circulação nas redes.

Plataformas não são espaços neutros

A professora Liziane Guazina defendeu uma compreensão sistêmica da desinformação. As plataformas digitais, explicou, não são espaços neutros de interação: são infraestruturas privadas que classificam, organizam e distribuem conteúdos segundo regras próprias, ligadas a seus modelos de negócio.

“É como uma partida de futebol: para compreender a desinformação, não basta observar a bola. É necessário considerar o campo, os jogadores, o juiz e as regras do jogo”, comparou.

A pesquisadora também ressaltou que conflito e divergência fazem parte da democracia. Para ela, o desafio é preservar o debate público sem permitir que a discordância se transforme em desqualificação do outro.

Jornalismo, transparência e proteção aos mensageiros

Tatiana Farah chamou a atenção para outra dimensão da integridade da informação: a proteção dos profissionais que apuram, produzem e levam informações de interesse público à sociedade. Além de lidar com um fluxo crescente de conteúdos falsos ou manipulados, jornalistas e comunicadores enfrentam ataques que procuram desacreditá-los e, com eles, as instituições responsáveis pela informação.

Nesse cenário, transparência, rigor na apuração e qualidade dos dados continuam indispensáveis, embora não sejam suficientes por si sós. “Uma informação correta pode ser rejeitada simplesmente porque contraria crenças, identidades políticas ou visões de mundo consolidadas”, observou Farah.

A jornalista destaca que iniciativas de verificação, como o Projeto Comprova, ajudam a enfrentar a desinformação, mas precisam responder a conteúdos produzidos e disseminados em grande escala. A inteligência artificial agrava esse desequilíbrio ao tornar mais rápida e barata a criação de textos, imagens, áudios e vídeos falsos ou manipulados.

Farah destaca que os profissionais da comunicação precisam saber acessar dados, interpretar linguagens técnicas e transformar temas complexos em conteúdos compreensíveis e atraentes, sem abrir mão da precisão. É um trabalho que combina competência técnica com a construção contínua de confiança.

Sugestão de quadro A UNESCO organiza a proteção do ambiente informacional em três dimensões complementares, que ajudam a situar o alcance desse desafio:

Dimensão O que envolve
Qualificação da demanda Oferecer aos cidadãos condições para desenvolver uma relação crítica com as informações que recebem.
Qualificação da oferta Fortalecer jornalistas, cientistas, professores, comunicadores e outros produtores de conhecimento confiável.
Governança dos sistemas de distribuição Considerar o papel das plataformas digitais e das empresas de inteligência artificial na circulação e amplificação das informações.

 

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*Comunicadora pública na Gátawa Comunicação. Associada da ABCPública. Brasília

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